A estética e a influência dos anos 20

Por Nuta Vasconcellos / nuta@gwsmag.com

Todo mundo sabe que de tempos em tempos, uma década volta para nos inspirar. Na moda, no cinema, na música e tudo isso que envolve a nossa tão controversa e amada cultura pop. Eu também acredito que essa influência é comportamental. Quando nosso olhar se volta para uma década, estamos também buscando os valores da mesma.

Depois de toda a influência dos anos 90, agora vivemos toda adoração pela estética e pelo comportamento sessentista; que é a cara de uma garota original, cheia de personalidade e sem medo de se destacar, sem medo de se divertir.

Mas engana-se quem acha que as primeiras “rebel girls” nasceram lá nos anos 60. Mesmo que as décadas de 30, 40 e 50 tenham sido um pouco sem graça quando o assunto é comportamento feminino, os anos 20 foram importantíssimos para a construção e evolução do que (a gente) acredita ser uma garota estilosa (pausa para refletir se você acha que estilo é sinônimo de roupa). A mulher dos anos 20, foi fundamental para que as garotas dos anos 60 pudessem se divertir e principalmente, fundamental para que elas pudessem queimar o sutiã. Aliás, foi lá naquela década que surgiu a primeira it girl do mundo, Clara Bow, atriz de Hollywood. Naquele tempo também tínhamos Louise Brooks (uma das mulheres mais lindas do mundo na minha opinião) atriz e com certeza, uma mulher a frente do seu tempo e Alice Paul ativista que lutou pela direito do voto das mulheres.

Aos poucos, bem aos poucos, eu percebo que essa mulher anos 20, está dando as caras na estética e no comportamento atual. Até os anos 20, a mulher era educada para ser “fada do lar” (sim, isso mesmo que você leu) e era considerada incapaz, veja bem, INCAPAZ de fazer suas escolhas, e por isso, precisava, (eu disse PRECISAVA) de um “responsável”, fosse ele pai, irmão ou marido para fazer isso por ela. Até os anos 20 mulher  não podia trabalhar, não podia votar. Tinha que usar espartilho. TINHA QUE. Mulher “direita” não usava batom vermelho, roupa que mostrava a pele. Não bebia, não fumava, não usava cabelo curto. Isso era coisa de homem.

Os anos 20 mudaram tudo isso. As mulheres se posicionaram e lutaram pelo que acreditavam. E se hoje em dia já é difícil ser uma garota, você imagina naquele tempo? Mas elas conseguiram o que realmente, parecia impossível. Elas se livraram do espartilho, colocaram as costas e braços de fora, maquiagem de “puta” na cara, cortaram os cabelos e foram dançar jazz.

O filme “O Grande Gatsby” que estreia por aqui no dia 7 de junho é baseado no livro de mesmo nome do autor F. Scott Fitzgerald que originalmente foi lançado em 1925. O livro é uma crítica ao “sonho americano” e toda a estrutura conhecida até então. A prova que a “geração anos 20” estava longe de ser uma geração conformada. Na moda, desde o ano passado é visível o desejo pela volta da estética da década como vimos nos desfiles da Gucci, Ralph Lauren, Marc Jacobs e Etro. A garota dos anos 00’s assim como a garota dos anos 20 luta pelo direito de usar o que quiser, como quiser. Sem ser tachada de puta ou santa.

Além da transformação estética a mulher dos anos 20 foi trabalhar, ganhou direito ao voto, bebia, fumava, dirigia, expressava seus desejos sexuais. A mulher dos anos 20 era um soco no estômago do machismo. Ela incomodava e quebrava todo o conceito de mulher princesa, da mulher delicada, frágil. Ela era rock’n’roll e mostravam isso com seus decotes, com seu cabelos curtíssimos, com os vestidos de melindrosa. A silhueta era mais vertical e longelínea, com a cintura deslocada para baixo. Os tecidos eram leves, fluidos como a seda. Foi o primeiro grito da androginia, com mulheres usando peças do guarda-roupa masculino. Hoje em dia com certeza usaria blusa de banda, calça jeans, all star preto e levaria seu cartaz para a marcha das vadias.

A luta de uma garota dos anos 20 não morreu, mas vamos dizer que ela passou um tempo adormecida. Foi difícil para as mulheres dos anos 30, 40 e 50 darem um passo tão grande e revolucionário como as da década anteior. Tinha que ter muito peito, muita coragem, e elas que assistiram de perto, sabiam que não foi nada fácil. As garotas dos anos 60, 70, 80 e 90 aproveitaram essa liberdade, esse direito de ser livre que foi conquistado pela mulher dos anos 20 e viveram ali, sem grandes preocupações.

Mas a garota dos anos 00’s percebeu que o machismo foi “domado” mas não abolido. Ele está ali, nas entrelinhas, nas piadinhas do dia a dia, nos salários mais baixos mesmo exercendo a mesma função do homem. Que mesmo livre dos espartilhos, a mulher continua “escrava” da beleza e dos padrões pré – estabelecidos.

A mulher 00’s enxerga que doenças como a bulimia e  anorexia, que o estupro e que até as revistas femininas são ainda frutos do machismo incubado na nossa sociedade. A mulher 00’s também tem consciência de que ser feminista não é o oposto de ser feminina. Aliás, a mulher 00’s sabe que feminismo não é o machismo invertido como nossa sociedade tenta pregar. A mulher 00’s enxerga que o machismo faz mal não só para as mulheres, mas para os homens também.

Com essa consciência a mulher dos anos 00’s busca inspiração na mulher dos anos 20. E é essa influência que vamos começar a ver nas vitrines, no cinema e no novo comportamento feminino que vem chegando de mansinho, assim como foi naquela época, mas vem chegando, para mais uma vez, revolucionar  o mundo.

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