A Viagem que Mudou a Minha Vida: Mochilão pela Europa – Capítulo V (o último!)

Por Carol Guido / carol@gwsmag.com

Mochilão é igual a rapadura. É doce mas não é mole não. Depois dos perrengues para conseguir ir pra Milão, depois a ideia tensa de passar 3 meses em Londres sozinha, a coragem de passar pela imigração britânica sem nada a meu favor e a ida para uma casa no subúrbio da cidade dividir o quarto com uma desconhecida fizeram de mim uma pessoa mais casca grossa. Por isso, vivi cada momento em Londres com o máximo das minhas forças. E fiz muita coisa doida e legal. Vou contar algumas histórias que rolaram comigo durante estes 3 meses lá. Vambora?

As diferenças

Como eu já contei para vocês, a casa que morei só tinham brasileiros ilegais. Porém, eram as pessoas mais bom coração que conheci, competentes e trabalhadoras. Nosso país às vezes é uma merda mesmo.

Eu, filha de papai e mamãe, com escola de inglês paga por um lado, sem um puto no bolso por outro, morava com essa galera de realidade totalmente diferente da minha. Ao longo do tempo que fiquei nesta casa (um mês), a convivência com universos tão diferentes era até difícil de lidar. Na escola estudava com pessoas bem de vida, que estavam fazendo intercâmbios planejados, moravam em casas de família e tinham toda a infra psicológica para se preparar para um exame de Cambridge nada fácil.

Em casa, lidava com pessoas que largaram suas vidas no Brasil (ou Portugal) para viver no subúrbio de Londres, trabalhando como faxineiros, pedreiros e etc. Duas situações me marcaram muito na conviência com estas pessoas.

Uma foi uma das declarações que mais me chocou durante o tempo que eu estava lá, de um casal que morava comigo. Enquanto a gente conversava sobre a situação de viver ilegalmente, eles falaram: “Ah a gente não se preocupa muito com fiscalização de imigrantes. Se um dia pegarem a gente pelo menos voltamos de graça pro Brasil.” Sim, sinistro. Eu não podia julgar. Eles falaram isso e eu fiquei na minha.

A outra, é uma das coisas que mais me faz refletir até hoje quando penso na minha vida (e faz com que eu me sinta uma pessoa de sorte). A minha roomate era mãe solteira, tinha três filhos no Brasil que tinham entre 12 e 16 anos. Ela foi para Londres ser empregada doméstica por que aqui na nossa terra verde e amarela não conseguia sustentar a família. Ela era professora de História no Brasil. Damn life.

Uma nova galera – squatters e hippies

Quando falei com o meu ex namorado (a gente mantinha contato, afinal ele era minha única referência na Europa) que queria me mudar por que a casa era muito velha e etc, ele me deu o telefone de uma amiga chamada Bruna. Aquela mesma história: conheceu num festival de música eletrônica e coisa e tal.

O fato é que eu conheci a Bruna e ela se tornou minha melhor amiga lá. Junto com ela veio uma nova realidade que era muito mais a minha cara: ela morava numa squatt com o namorado e mais um casal (uma espanhola e um brasileiro). Vocês sabem o que é uma squatt? Pra quem não sabe, vou explicar uma das coisas mais sensacionais que já vivenciei ever.

Squatts são propriedades da coroa invadidas por pessoas aleatórias que vivem nestes lugares sem pagar nada (sem-terra feelings). O grande lance é que em Londres isso é permitido. Funciona assim: existem diversas casas e apartamentos que pertencem a coroa britânica. Estes lugares ficam em desuso em geral por algum tempo até virarem um projeto de moradia popular ou serem transformados em alguma instituição pública ou algo do tipo. Enquanto ficam parados, são fechados por grandes placas de aço nas portas e janelas. Se você conseguir arrombar sem ser pego, depois que já está lá dentro, pode ficar. A infração é a invasão, mas a “posse” é ok. Hahaha não é demais?

Aí você precisa colocar um aviso na porta da sua casa dizendo que é uma squatt e que você vive de acordo com as regras ali. Se um dia a coroa precisar daquela propriedade, te dá um aviso de despejo e você tem 30 dias para sair.

A complicação toda é que é difícil arrombar um lugar sem ser pego, além de não ser nada simples encontrar squatts que ficam em um local que já não é dominado por um grupo ou gangue e que não seja perigosa de arrombar (se já tiver um “dono” da área pode dar merda). E mesmo depois de se apossar, você não é dono daquele lugar. Quem pode garantir que uma galera não pode se juntar e reinvadir o lugar com você dentro? Tudo é possível.

A Bruna tinha encontrado um lugar muito tranquilo. Tinha mais dois amigos dela squatters no mesmo prédio. Um morava com a namorada francesa que aprendeu a falar português com a galera. Ele trabalhava com cinema e ela era massoterapeuta. Por conta disso consegui um bico lá em Londres de figurante de uma série de TV (nunca vi) e ganhei uma massagem de graça boazona. O outro vivia com a esposa e um filho (sim, o ambiente era super família!). Ele trabalhava numa boate de strip de luxo. Haha era cada história engraçada.

Quando conheci esta galera me encontrei. Ia para a casa da Bruna todos os dias, fiz amigos e parei de me sentir sozinha. Depois de um tempo acabei saindo da casa que eu morava e fui para Mile End, um lugar mais central do que Dollis Hill, um pouquinho mais caro, porém mais civilizado. E eu já podia arcar com esta nova despesa…

Os bicos que arrumei

Além da figuração, fiz faxina (nunca mais fui chamada pela patroa, devo ter mandado muito mal) e por último arrumei uma renda mais fixa: distribuindo flyer de festas nas ruas.

Consegui essa boa depois de um mês procurando coisas todos os dias no GumTree. O difícil é que eu não queria fazer documentos falsos (obviamente) então tinha que ser algo que não exigisse nada.

Photographers Gallerie: vale a pena procurar e conhecer

Até que encontrei neste site esta empresa de festas. Fui no escritório deles (era um mega galpão com uma decoração meio industrial, só tinha gente jovem trabalhando, bem legal) e falei com um dos resposáveis pela distribuição dos flyers.

Ele bateu um papo de 5 minutos comigo e parecia que a gente estava se conhecendo por amigos em comum de tão tranquilo que foi. Aí ele me chamou pra trabalhar com eles na hora e explicou como funcionava:

“São turnos de 4h, de manhã, tarde e noite. Você pode ir quando quiser, no turno que quiser. Liga pra gente 1h antes e combinamos o horário. Não é nada fixo, você pode não ir um dia ou outro, mas se for parar de vez é legal avisar a gente tá? Você ganha 70 pounds por turno.” (não lembo o valor, tô chutando)

Mamão com açúcar. E foi com este dinheiro que me sustentei por lá todo o tempo.

E o ex namorado? E a prova de Cambridge?

Bom, acreditem se quiserem, mas o ex namorado foi pra lá me encontrar depois de um tempo. Lógico que as coisas deram errado e ele voltou. Não mais para Milão. Veio pro Brasil ficar por aqui de vez.

E a prova, eu quase morri de tanto medo. O clima era tenso tipo vestibular e com tantas coisas, pessoas e a cidade toda para explorar, eu quase não estudei como deveria. Mas eu passei! Raspando, tirei C, mas passei! Ufa!

Cabelo laranja com manchas castanhas e eu sendo Hippie

Cismei que ia pintar meu cabelo de super blonde. Aí a amiga espanhola que morava com a Bruna me falou que pintava o dela própria (que era bem legal) e poderia fazer o meu.

Comprei a tinta certinha e fomos nós pintar em casa. Ficamos batendo papo, tomando bons drink e já estávamos mais pra lá do que pra cá quando fomos botar a mão na massa.

Ela fez a misturinha que vem no pote, passou no cabelo, pã. Quando a gente lavou, o resultado foi catastrófico. Meu cabelo ficou com cor de gema de ovo e com umas partes por dentro que a tinta não tinha pegado. Ela foi checar o por quê do desastre e percebeu que tinha misturado a tinta com o creme pós lavagem!!! Haha

E o pior de tudo: eu não tava nem aí. Fiquei com aquele cabelo uns 2 meses igual uma doida. Hahaha cheguei num nível de hiponguisse lá que vocês não acreditam. Até ia de pijama na vendinha do lado comprar pão. A Europa faz essas coisas com a gente. Liberdade boa demais.

London Bridge e o meu cabelo mais normal

Ah! E quando cansei daquela mulambagem comprei uma tinta castanho escura e passei. Quando fui pra aula de inglês o meu amigo japonês senta o meu lado e solta: “Eu não sabia que vocé é tão bonita.” Hahaha GENTE.

Minha primeira (e única) tatoo

A minha única tatuagem até hoje é um mini coração no pé, mas ela guarda uma história que eu tenho muito carinho. Quem vê acha que fiz para algum namorado ou por que o coração é um símbolo fofo. Pior que não foi nada disso. Ela é uma memória desta viagem (que mudou a minha vida). Foi assim:

Um amigo brasileiro da Bruna chegou na casa dela para passar um tempo lá. Ele é tatuador e estava fazendo mochilão pela Europa passando pela casa dos amigos brasileiros, tatuando eles e agregados. Com o dinheiro ele aproveitava a cidade e assim ia seguindo e viajando.

Lá em Londres ele tatuou toda a galera que convivia com a gente. Menos eu, que não tinha uma ideia de algo que quisesse muito fazer, então não queria me arriscar a ter um rabisco que não significasse nada e depois fosse enjoar.

Daí, no meu último dia, nos reunimos para beber, conversar e fazer a minha despedida. Papo vai, papo vem, ele solta:

— Carol, você vai embora sem tatoo. Não é possível, vamos arrumar algo pra você cara.

— Ah eu nem quero. Fico bolada de depois enjoar. Se fosse algo que tivesse significado…

A galera deu ideias, mas nada me apetecia. Aí a Bruna pega uma caneta bic, vira e fala:

— Já sei, eu vou tatuar você. Assim você vai sempre lembrar desta viagem, da galera e da nossa amizade.

E ela desenhou um coraçãozinho no meu pé.

Pronto! Era o gancho que eu precisava. Pedi pro nosso amigo tatuador arrumar tudo e fizemos a minha primeira tatoo. Ficou irada e com as memórias mais legais que eu poderia ter! :)

Cabelo normal!

Informações para quem quer viajar:

Metrô: Quem vai estudar em cursos full time, tem direito a um Student Oyster Card (cartão do metrô deles). Esta maravilha te salva 30% de economia nas passagens. Para fazer, é só pedir ajuda na sua escola de inglês. Aqui no site do transporte de Londres tem mais informações.

Encontrando trabalho / lugar pra morar: Quando já estava lá, descobri o GumTree, que é um site de classificados. A boa é que ele é usado por quase todo mundo no país e você encontra tudo de lá. Salva vidas.

Conexão com o Brasil: Em restaurantes brasileiros ou outros estabelecimentos nossos (tipo o Banco do Brasil, que tem uma agência perto da estação de Liverpool St) rola a distribuição de revistas sobre a cidade, mas feita por nós, brazilians. É uma boa sempre pegar a sua. Rolam dicas, endereços úteis, matérias que podem realmente interessar e acho que tem classificados também.

Leia todos os posts:

– Capítulo 1

– Capítulo 2

– Capítulo 3

– Capítulo 4

PS: Quando comecei a escrever esta série não imaginei que renderia tantos capítulos. Como falei lá no primeiro, eu sabia que ia ficar grande, por isso dividi em partes. Mas não tanto. Por isso quero ser sentimental e agradecer a todas (e todos?) que acompanharam. Foi uma experiência e tanto pra mim. De verdade. Escrever tantas páginas é um desafio intenso. Amei! Valeu, gente!

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