O feminismo e a liberdade por trás das culpas que a gente carrega

Por Carol Guido / carol@gwsmag.com

Escrevi este texto como base para um cowriting com a Bárbara Carneiro, publicado na revista online Juno, da queridíssima Stephanie Noelle. Pra ler o resultado final é só ir pra página 46 da revista. A versão abaixo é o texto cru, mas que ainda assim gosto muito, então resolvi publicar.

Vergonha e culpa são dois sentimentos que andaram muito tempo juntos dentro de mim. Infelizmente, demorei pra saber o quanto eles estão ligados ao slut-shaming e self-body-shaming, expressões conhecidas dentro do feminismo, que eu até um ano atrás nunca tinha ouvido falar. Digo isso com pesar, porque se eu conhecesse estas duas expressões desde cedo, talvez tivesse entendido as culpas que eu carreguei sem saber durante boa parte da adolescência. Culpas desnecessárias (talvez todas sejam, mas eu não saberia dizer) que só o contato com o feminismo me ajudou a libertar.

tumblr_n4msb6iynI1rk6qppo1_500Imagem: helpstopslutshaming.tumblr.com

Slut-shaming, pra mim, nada mais é do que a culpa por ser atraente, ou em tradução literal: vergonha de ser piranha. Está ligada àquela busca eterna pelo “sexy sem ser vulgar” que muitas de nós nos submetemos a vida toda. Aquela coisa que ouvimos de alguns pais, avós, educadores: “Este vestido te deixa pelada demais, menina.” De revistas de moda: “Se for usar decote, não pode ousar no comprimento da saia.” E até de bffs: “Bebendo assim você não se dá ao respeito, amiga!”. E você vai absorvendo, sem saber que esta busca simplesmente não faz sentido.

E não importa o quanto você se esforce, enquanto a sua busca residir em um conceito que depende do julgamento alheio e ainda por cima intangível, você vai ficar pra sempre tentando agradar o “inagradável”. Até que ponto uma coisa é vulgar pra um e não é pra outro? E qual o tamanho do decote aceitável? E se eu quiser sim andar pelada, ser vulgar, misturar saia curta, com decote no umbigo e ainda beber até cair?

Já o self-body-shaming é a vergonha (e por consequência, a culpa) por não ser atraente o suficiente. Veja bem, logo de cara, você pode se questionar: suficiente pra quem, cara pálida? Mas quem sofre deste mal não pensou nisso. Provavelmente esta mulher sabe que estou falando de padrões. Do que é socialmente considerado bonito e portanto, o que é bom. O resto, bem, vira resto. E você vê por aí todas as fórmulas mágicas para se tornar uma pessoa tão maravilhosa e bem sucedidade quanto as moças de Hollywood. Nas capas de revista: “Como ter barriga tanquinho em 7 dias.” Na TV: “Perca 5kg em 2 semanas com a dieta das estrelas.” E por aí vai.

Mais uma vez não importa o quanto você se esforce. As pessoas são diferentes. Tentar padronizá-las é uma afronta à nossa condição de seres humanos. Mas dá dinheiro. Ô como dá. Você vai passar a vida toda sofrendo e correndo atrás do corpo “perfeito” enquanto gasta todas as suas cifras em tratamentos, dietas, produtos, remédios. Todo mundo lucra. Menos você e sua saúde mental.

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Eu descobri isso da pior forma possível. Sofrendo. Escutando a colega de sala me perguntar se  eu nunca tinha pensado em fazer plástica no nariz, que até então, eu nunca tinha achado grande demais. Ouvindo de ex namorado que a gente tem que ter o corpo lindo de biquini, mas que eu só ficava legal com as roupas certas.

E quando eu fui ler estas revistas que falavam de dietas várias delas diziam que o corpo ideal era o violão: com o quadril e busto com medidas similares e a cinturinha (~inha~) bem mais fina. Fui me medir e pra minha surpresa eu atendia a estas premissas. Então, qual era o problema?

De novo: o conceito não é universal. Não tem como transformar pessoas em um tipo único. O que é violão pra uns não é pra outros.

Esta cultura do self-body-shaming slut-shaming é fruto da sociedade patriarcal que ainda impera no nosso país (e me arrisco a dizer, em todos os outros). É desta sociedade e destas duas vergonhas que nascem problemas graves e crônicos como a glamourização do culto ao corpo “perfeito” e a cultura do estupro, por exemplo.

O resultado disso?

A cada 15 segundos uma mulher sofre violência no Brasil. 1 em cada 5 sofrerá estupro durante a vida.*  Enquanto estes números martelam na minha cabeça, eu lembrei de uma notícia de um policial que disse para a vítima de estupro que se ela estivesse usando roupas menos provocativas, poderia ter evitado o ocorrido. ~ Quer dizer ~.

54% das mulheres brasileiras não estão satisfeitas com o seu corpo**. Algumas por conta do peso, outras por terem celulite, a lista é imensa. Mas será que essa preocupação com mais da metade da população, veja bem, mais da metade, é normal? É “coisa de mulher”? Não. É. Possível.

Antes de saber que existia self-body-shaming e slut-shaming eu sentia a contradição entre o que eu falava e o que meu coração dizia, mas não entendia o que era. Até que comecei a procurar respostas e encontrei. Encontrei o feminismo e o melhor de tudo: entendi que as culpas que carreguei durante tantos anos tem nome e saber o que elas significavam transformou meu “shamings” em libertação. Espero transforme os seus também.

*Fonte: Disque Denúncia RJ

**Instituto Sophia Mind

PS: Leia mais sobre feminismo aqui no GWS. Só clicar na tag amarela no final dos posts com este assunto. ;)

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