Lana, com os pés no chão

Por Nuta Vasconcellos / nuta@gwsmag.com

lana del rey 3Foto Néstor J. Beremblum / Divulgação T4F

Eu ainda estou na dúvida se na noite de ontem, no Citibank Hall eu estive em um show ou em alguma espécie de ritual sagrado. Lana Del Rey entrou no palco como uma ninfa e o público, em grande parte usando corôa de flores, como uma homenagem àquela que de fato parecia uma espécie de deusa.

Eu tenho no meu currículo uma quantidade boa de shows. Comecei cedo a atividade e tenho certeza que ao longo da minha carreira assisti mais de cem, entre eles de divas da música como Madonna e Amy Winehouse. Ao longo da minha história eu já vi muito chororô, muito fã enlouquecido, já vi gente cantando tão alto, que parecia que o pulmão explodiria. E eu também sempre vi divas, deusas ou como preferir chamá-las recebendo com toda pompa de divindade toda essa adoração.

Mas não Lana. Lana é diferente. Assim que entrou no palco foi ovacionada de uma forma que eu realmente, até então, nunca tinha visto. Sua atitude foi fechar os olhos e receber toda aquela energia. Ao longo do show, enquanto fãs literalmente cantavam mais alto do que ela suas letras, como se cada palavrinha fosse um desabafo da alma, Lana era serena, doce e queria retribuir cada demonstração de afeto.

E ela retribuiu. Se você não saiu do show dela sem sentir que vocês eram melhores amigas, você não foi ao show da Lana Del Rey.

lana del rey 1Foto Néstor J. Beremblum / Divulgação T4F

Em uma era que de fato, os personagens do mundo do entretenimento são tratados como deuses e pedem água com raspas de baunilha, cinco mil toalhas brancas com bolinhas rosas e fazem questão que seus seguranças façam o trabalho sujo de afastar a plebe, ops, quer dizer os fãs, Lana no palco, toma refrigerante comprado no Bob’s e exige que em seu camarim, sem nenhuma grande exigência, além daquelas que nós meros mortais também precisamos para viver, que tudo seja reciclado.

Enquanto canta ela recolhe com carinho tudo, tudo que jogavam para ela, inclusive aqueles objetos que sem querer, a atingiu. Lana conversa, beija, agradece. E quanto mais humana ela fica, mais deusa ela parecia e mais como uma deusa ela era tratada.

Eu não me senti em uma casa de shows do tamanho do Citibank Hall. Eu não me senti na presença de uma estrela internacional. Estrela não para uma música no meio, pede mil desculpas e diz que já volta porque precisa tomar um chá. Na volta, confessa que o que ela precisava mesmo, era de um cigarrinho. Ninguém se sentiu ofendido. Ninguém vaiou ou criticou, sabe por quê? Em uma era em que todos os shows perderam a espontaneidade e mais parecem um filme em que cada sequência, até o momento de beber água é ensaiado, ver alguém vivendo realmente aquele momento, chega a ser libertador.

lana del rey 2Foto Néstor J. Beremblum / Divulgação T4F

Estrelas internacionais não falam “I Love You” e really mean it. Com a Lana, parecia real, parecia recíproco.

Lana Del Rey ainda é Lizzy Grant. Ela ainda toca em bares do Brooklyn para os amigos e entre um gole de pepsi cola aqui, um cigarrinho acolá, ela canta, conversa e os cumprimenta.

Acontece que o bar cresceu e a lista de amigos aumentou. Mas Lana que fez o show descalça, continua com os pés literalmente, no chão.

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