Mercado de trabalho, mulheres e deficiência

Por Nuta Vasconcellos / nuta@gwsmag.com

Consegui meu primeiro emprego aos 18 anos. Era minha responsabilidade checar se o ponto eletrônico de uma empresa de telemarketing funcionava corretamente. O que eu fazia, o dia todo, era abrir e fechar um sistema e ver se tudo estava OK. De hora em hora, seis vezes ao dia. No resto do tempo, nada. Fiquei nessa função por cinco meses até entrar na faculdade e conseguir meu primeiro estágio em TV.

Giada Ganassin

Ilustração: Giada Ganassin

Essa oportunidade surgiu porque a empresa precisava se adequar à Lei das Cotas para evitar multas do Ministério do Trabalho. Essa lei completou 25 anos em 2016 e, resumidamente, diz que todas as empresas com mais de 100 empregados devem contratar pessoas com deficiências congênitas ou reabilitadas. A medida que o número de funcionários aumenta, aumenta a porcentagem de cotistas.

Anos mais tarde, já formada em jornalismo, tive a oportunidade de trabalhar em São Paulo. Eles praticamente me imploraram para aceitar o serviço porque não existia alguém, com deficiências, com tantas qualificações e experiência. Eu era perfeita para a vaga! Ao invés disso, aceitei um emprego de assistente administrativa em uma metalúrgica da minha cidade porque ficava muito caro me contratar como jornalista. As duas vagas existiam por conta de cotas.

Há cotas também em concursos públicos, programas de pós-graduação, programas do governo como ProUni e Bolsa Família. Segundo dados do IBGE, 6,2% dos brasileiros possuem algum tipo de deficiência; cerca de 45 milhões de pessoas. Desse total, segundo dados de 2015, apenas cerca de 400 mil estão trabalhando. Se separarmos por gênero, cerca de 259 mil são homens e 144 mil, trabalhadoras mulheres. Segundo dados do Ministério da Educação divulgados em 2015, apenas 0,42% dos ingressos em universidades apresentam algum tipo de deficiência. Não encontrei dados sobre pessoas com deficiência em programas de Mestrado ou Doutorado mas afirmo, com a segurança da experiência, que são raros os casos.

Na minha vida profissional, já vivi as várias realidades que existem no mundo dos PCDs: já tive empregos apenas para cumprir cotas, já trabalhei em vagas que exigem menos qualificação que as minhas porque deficiente é, apenas “auxiliar de alguma coisa”, também já tive oportunidades grandes porque não raras as pessoas com deficiência extremamente qualificadas e especializadas em algo…

Falo de um lugar de privilégio, tive oportunidades, criei oportunidades. Me empenhei em estudar e continuo fazendo isso porque, acredito no clichê “conhecimento é poder”. Mas, já parou para pensar naquela moça cega, ou cadeirante, ou surda, que mora em uma micro cidade onde as questões de deficiência são vistas como uma maldição divina e por isso é preciso se resignar e viver da proteção dos outros? Qual as chances de ela trabalhar? Quais as chances que ela tem de se empoderar da sua própria vida? Sejamos sinceras, nenhuma. Ou ela vai morar com família pra sempre ou vai arrumar um marido e viver, apenas, naquele universo fechado.

Portanto, quando você ouvir falar sobre cotas para pessoas com deficiência reflita sobre a importância de se discutir sobre isso e de pensar como, na prática, ela se configura. Mais e mais.  Em todos os lugares. Sob todos os aspectos. Não ache o assunto chato ou tente mudar o tema da conversa. É importante falar sobre isso e dar voz para quem mais entende do assunto: nós, pessoas com deficiência. Dar oportunidade de trabalho para alguém é quase uma salvação de vida. É dar independência. Dignidade. É preciso fazer muito ainda, mas se for possível começar exercitando a empatia, já é um ótimo começo. Todos nós ficamos felizes com novos espaços de fala. É uma questão de humanidade. 

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