Mitos e verdades sobre gordura, magreza, saúde e a tal felicidade

Por Girls With Style / gws@gwsmag.com

Por Pollyanna Assumpção:

10627686_10203849217443807_1293928598_oIlustração da maravilhosa Negahamburguer! ♥

“Toda mulher acha que podia perder 2 quilinhos”. Você já deve ter ouvido essa frase que parece até engraçadinha mas na verdade só mostra o quanto estamos insatisfeitas com nossos corpos desde que nos lembramos deles. A Jana falou bem sobre isso no desabafo, sobre a culpa e minha amiga Rafa. É difícil encontrar uma mulher que não esteja de dieta, evitando carboidratos depois das 18h, ou jantando uma saladinha porque “é mais leve”. É fácil encontrar também uma mulher que comprou uma roupa um número menor “porque vai caber quando eu perder uns 5 quilos”.

Vou contar um pouco da minha experiência pessoal pra vocês. Quando eu era criança, minha mãe conta que eu só tinha pé e pescoço. Eu parecia um filhote de girafa, muito magrinha, muito alta, com um pé enorme. Já calçava 39 aos 9 anos de idade. Mas um belo dia eu comecei a ficar gordinha. Fiz minha primeira dieta com 10 anos. Estava na 4a série e lembro que meu apelido era Pollygorda. Esse apelido me perseguiu por todo o ensino fundamental. Não importava o quanto eu emagrecesse, eu continuava gorda. Eu me olhava no espelho perto das minhas amigas de 1,50 de altura e 40 quilos, enquanto eu com 1,76 e 70 quilos aos 12 anos me achava enorme. Grande. Gorda. Hoje pego minhas fotos daquela época e me acho magérrima. Penso quão bom seria voltar a ter aquele corpinho de 12 anos. Continuo não satisfeita com meu corpo, como vocês podem perceber.

Ao longo dos meus 31 anos eu nem consigo mais lembrar quantas dietas eu fiz. Cheguei aos 100 quilos duas vezes. Me senti um lixo em ambas. Sofria porque estava gorda, comia pra me sentir melhor, engordava mais, me sentia um lixo, comia mais e o ciclo nunca acabava. Nesse período tomei anfetamina pra emagrecer duas vezes. O tempo que tomei afetou meu sistema nervoso de tal modo que dormir hoje em dia é um sacrifício. Nunca tinha sido antes do remédio. Consegui a receita em um médico carinhosamente apelidado de Dr. Caveirinha. Perdi 20 quilos na época. Lembro que eu falava rindo “morro, mas meu caixão não vai ser feito por encomenda pro meu tamanho”. Depois que parei os remédios eu resolvi ir pra academia. Posso dizer que foi um período agradável onde descobri atividades que realmente apreciava. Mas honestamente? Não perdi nem 20% do peso que perdia tomando remédio. E eu chegava a passar três horas na academia. No início do ano arrumei um emprego e tive que parar de malhar. Engordei uns seis quilos em 3 meses. Comecei a dieta Dukan, aquela que você não come carboidrato. Perdi todos os quilos ganhos em um mês. Gostaria de dizer que ainda estou nela. Não me envergonho. Mas hoje me acho uma pessoa tranqüila, como as chamadas “besteiras” às vezes e a dieta acaba me ajudando a manter o peso perdido sem um sacrifício muito grande.

Se você chegou até aqui, gostaria de dizer que nesse tempo todo de vida, mesmo quando cheguei a 100 quilos, nunca tive glicose ou colesterol alto. Nunca deixei de fazer atividades normais do dia a dia. Nunca deixei de fazer sexo, inclusive as duas vezes que engordei assim eu estava namorando. Nunca me senti doente ou inapta. Minha saúde, aquela que os gordofóbicos adoram alegar como motivo para fiscalizar o corpo alheio estava em perfeita ordem.

O que eu me sentia era feia, horrorosa e diferente. Há pouco tempo uma amiga minha passou no concurso público e foi lá fazer os testes admissionais. Ela descobriu que por causa de um antigo colega de trabalho no outro emprego, ela estava com a bactéria da tuberculose encubada no seu organismo e embora não estivesse doente, precisaria fazer um tratamento de seis meses. Uma das médicas que a atendeu pareceu não se preocupar muito com isso, apenas com o fato de que minha amiga estava… obesa.

Minha amiga tem mais ou menos 1,75 e 80 quilos. Ela não é magra, mas ela definitivamente não está obesa. Quem não conhece uma história similar? De alguém que foi ao médico por QUALQUER MOTIVO e saiu de lá com uma recomendação de dieta e uma folhinha safada de dieta dos pontos? Doutora senhora médica: O que minha amiga vestir 48 tem a ver com a tuberculose ou a impede de exercer a função no concurso público que ela passou? Então por que isso te incomoda tanto?

Outro dia também a Nuta me contou que uma amiga realmente obesa foi fazer uma cirurgia em que ela teria que abrir o abdômen. A cirurgia correu bem, mas a garota se assustou quando observou no espelho que tinha pontos estilo “costurei um porco” e pasmem, sem umbigo. Ao questionar o médico ele disse, assim na cara lavada: “Mas que diferença que isso faz pra você?” Fazendo uma referência clara ao peso dela.

CLARO. Uma mulher obesa não pode se amar, ser desejada e receber o mesmo cuidado e respeito que uma mulher magra. Afinal, ela não deve ter vaidade. Pois essa amiga da Nuta tem um marido apaixonado, ama comprar lingeries e sim. Se acha linda. A quem interessar possa, sim, ela processou o médico.

10491092_628819847237562_1282659016427355329_nIlustração da maravilhosa Carol Rossetti! ♥

Todo dia eu abro o G1 e tem na página principal uma reportagem sobre alguém que se tornou vitorioso e  iluminado e perdeu 40 quilos e agora é  feliz. Porque antes ele não era feliz. Ele não era feliz porque ele era gordo. Mas o que leva alguém gordo a ser infeliz por ser gordo? É o que leva as negras a quererem cabelo liso e as orientais a fazerem cirurgias para aumentarem os olhos? Um padrão imposto pela sociedade que precisa vender alguma coisa e pra fazer isso funcionar você é oprimida pra se sentir FEIA. Nada acontece por acaso.

Você se depila porque um dia uma fábrica queria vender lâminas, depois uma loja queria vender serviço de depilação a cera. Você pinta a unha porque uma marca de esmaltes disse que é bonito e foi apoiada por dezenas de outras marcas de outros produtos de beleza que hoje gritam todo dia em todos os cantos QUE VOCÊ SÓ VAI SER BONITA SE FOR ASSIM. Vejam bem, meninas: eu acho que vocês devem fazer o que quiserem para se sentirem bonitas, mas visão crítica é muito importante. Você deve saber porque você quer ser assim. Você não deve apenas aceitar que ser magra é bonito sem ao menos se perguntar porque você acha isso. Eu também acho que ser magra é bonito, a sociedade lavou meu cérebro direitinho, mas deixei esse sonho pra trás há algum tempo. Hoje meu objetivo é apenas caber em roupas de lojas de departamento porque né, se você veste mais de 46 isso se torna uma missão quase impossível. Mas  me incomoda o fato de tantas mulheres não conseguirem caber. Se sentirem feias e não aceitas dentro do provador.

Eu gostaria que o G1 dedicasse a mesma quantidade de páginas sobre pessoas que tem graves distúrbios alimentares como anorexia e bulimia como dedicam àquelas que “mudaram de vida” porque emagreceram. Eu gostaria que eles escrevessem sobre os riscos dos suplementos alimentares como escrevem sobre os riscos do açúcar. Eu gostaria de não abrir o Ego e ver a chamada da matéria começar com “mais magra, fulana passeia com amigos” ou “mais gordinha, fulana usa vestido rosa que marca a barriguinha saliente em premiação”. Mas principalmente, eu gostaria de ver pessoas acima do peso deixando de serem tratadas como doentes. Quando uma pessoa está emagrecendo ela só recebe elogios. “Nossa que diva, quanta força de vontade”, “Amiga, passa a dieta” E nessa, às vezes vemos mulheres perderem peso sem fazer a menor ideia de como isso aconteceu. E pode ter certeza: Muitas delas conseguiram isso de forma nada saudável. Gente magra também perde o fôlego porque é sedentário. Gente magra não necessariamente é saudável, não necessariamente come bem e cuida da saúde. Ela é só magra.

Na verdade, eu queria um G1 mais honesto. Quantas daquelas mulheres mais felizes e magras não sofrem com distúrbios? Ou por anos estão se matando com remédios para emagrecer? Ou quantas delas não decidiram emagrecer mais uns dois kilinhos se privando da pipoca e guaraná no sofá com o namorado porque viram lá no G1 mesmo, uma foto sua com a “barriguinha saliente” e aquela chuva de comentários com nenhuma empatia chamando ela de gorda? Acredite até Fernanda Lima já ouviu isso.

Eu sigo lutando contra meu corpo e meu metabolismo lento de quem toma 150mg de hormônio pra hipotireoidismo por dia, porque infelizmente não consigo ser livre como tantas amigas minhas conseguem ser e são felizes com suas pancinhas. Mas eu hoje me acho bonita, coisa que não me achava aos 12 anos, mesmo vestindo 44. Eu enxergar minha beleza, enxergar a lavagem cerebral feita pela mídia e pela indústria é minha vitória pessoal.

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