Moda, crítica e redes sociais: qual é o futuro do jornalismo de moda?

Por Girls With Style / gws@gwsmag.com

Por Bruna Martins:

Há uns dias, estava conversando com uma amiga sobre a falta de crítica no jornalismo de moda brasileiro. Aqui, parece que aconteceu o que eu chamo de “efeito Anna Dello Russo”: todo mundo é amigo de todo mundo, portanto ninguém se sente confortável o suficiente para falar que não gostou de alguma coisa. Não existe crítica, não existe dúvida, não existe questionamento – todo mundo adora tudo.

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Esse efeito é real e sim, a moda perde com isso. Não só o mercado, mas principalmente quem consome esse conteúdo. Se tudo o que você lê fala que tudo está bom, você se acostuma a não questionar. Isso só reforça um dos maiores problemas do formato da indústria da moda atual: se “está na moda”, é bonito, se não, é feio, e ponto final.

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Vendo o documentário “Jeremy Scott: The People’s Designer”, porém, parei para uma nova reflexão sobre esse assunto. Em sua primeira coleção para a Moschino, Jeremy recebeu muitas críticas. Algumas usavam palavras como nojento, feio e ridículo. E, ao mesmo tempo em que eu me sentia feliz por ver críticas tão duras, o que é bem raro nos últimos tempos, pensei que isso não faz muito sentido.

gws-jeremy-scott-moschinoEu, pessoalmente, gostei muito da coleção. Não acho que a justificativa de que é o real tipo de fast fashion fez muito sentido, mas em um contexto tão cheio de informação, essa mistura de mundos foi revigorante. O humor é óbvio e muito explorado, mas é bem-vindo, principalmente vindo de uma marca como a Moschino. E, acima de tudo, toda a estética e a surpresa fazem muito sentido quando inseridos no contexto que vivemos hoje. Obviamente, também não podemos esquecer que moda, também é uma forma de manifestação artística.

É claro, os críticos tinham todo o direito de falar que não gostaram da forma como quisessem. Eles são pagos para isso. Sem entrar na velha dúvida se certas pessoas devem ter uma voz tão pesada e imponente, que, quando publicada, seria replicada como verdade absoluta – em resumo, o modelo da mídia tradicional, penso se isso ainda funciona. A comunicação não é mais unidirecional. As “pessoas comuns” ganharam plataformas para expressarem suas próprias opiniões.

Minha dúvida é em relação às “autoridades”. Quem devemos escutar? As editoras que falam bem de tudo, pois não querem perder amizades? As críticas que falam o que pensam, mas não estão abertas para diálogo? As massas, que se expressam em fóruns, postagens em redes sociais ou apenas caixas de comentário? Como medir toda essa informação, toda essa opinião? Devemos ceder à bolha que se tornou nosso mundo online, onde só vemos e lemos a quem nos interessa?

É indiscutível que o modelo está mudando. Vemos, todos os dias, tudo o que era dado como sempre certo sendo repensado: coleções a cada semestre, passarelas, desfiles para pessoas consideradas importantes. O jornalismo, em geral, já está mudando. O jornalismo de moda, principalmente, precisa mudar. Já vimos uma pequena tentativa de revolução em forma de blogs, que acabou frustrada, mas criando uma nova categoria de comunicação do público com o mercado. Você, “pessoa comum”, deve estar tão perdida quanto eu. Me conta: o que você acha que vem por aí?

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9 Comentários

  • Maki

    Olha, acho esse questionamento super válido. O jornalismo de moda no Brasil é mesmo essa coisa de ‘todo mundo é amigo e, por isso, não vou falar mal de ninguém’. Mas acho que a questão não é falar bem ou falar mal. A essência do jornalismo é informar os fatos, então, talvez o caminho seja o jornalismo de moda se apegar a isso: às referências e toda a ‘história’ por trás de uma coleção, apresentá-la ao público pra daí cada um tirar disso o que agrada mais. Não sei, mas vejo como uma possibilidade. Porque ficar no ramo das opiniões também, não sei se é o caminho

    1. Bruna Martins

      O problema é que qualquer texto, principalmente o jornalístico, tem algum tipo de opinião inserido. “Ninguém consegue ser imparcial” é uma das coisas mais importantes que a faculdade de jornalismo ensina. A questão é que precisamos de jornalistas que admitam isso e sejam honestos sobre a própria imparcialidade (não só na moda, mas em todos os assuntos), para que quem lê saiba que aquilo não é o único pensamento possível e perceba que é sempre necessário buscar mais opiniões e informações para construir sua própria opinião.

  • Bruna Venancio

    Comentário que fiz no FB: Curiosamente, escrevi um texto com temática parecida no meu blog. Acho que a crítica de moda precisa amadurecer, sim, e endurecer inclusive. O lance é que criticar não é falar mal. Quando alguém diz que a coleção é feia, nojenta ou qualquer coisa nesse sentido, ela não está criticando: está emitindo uma opinião. E isso é muito diferente de criticar. Acredito que falte para a crítica de moda aprender, de verdade, a fazer critica de moda. A verdadeira crítica constrói e não destrói. E isso não significa falar mal ou bem, mas ter um posicionamento sobre o que vê e, acima de tudo, repertório para entender o que se propõe. O link para o meu artigo é: https://lugarcomumblog.com/…/mais-critica-menos…/

    1. Bruna Martins

      Mas acho que esse é exatamente o problema atual, Bruna. A moda é tão presente no dia-a-dia de todo mundo (mesmo de quem nega isso), que é importante pensar quem tem repertório para entender o que é proposto. Quem conhece mais de história da moda? Quem está inserido nesse meio o tempo todo (e acaba sendo amigo de todo mundo e tem medo de fazer uma crítica construtiva)? Já percebi que, às vezes, quem vai te ajudar a abrir a cabeça e pensar em coisas muito mais complexas é quem não está inserido no meio. E aí, como a gente faz para ouvir essas pessoas?

      1. Bruna Venancio

        Talvez o lance seja a gente, como leitor, começar a ser crítico, sabe? Não no sentido formal da palavra, mas começar a perceber que o jornalista não está sendo honesto e, simplesmente, parar de ler. É fato que as revistas sobrevivem de publicidade e, muitas vezes, é preciso ser mais amigável com algumas marcas para continuar existindo. O problema é quando todo o jornalismo acaba se resumindo a isso. Acho, também, que os estilistas não estão acostumados a ouvir críticas (o Hedi Slimane é um bom exemplo), diferentemente do que acontece com escritores e outros artistas. Então, Bruna, o que vai ser preciso é a gente, que é leitor, mas que também escreve, começar a afiar o olhar para o que a gente lê. E começar a propor uma atitude meio que de resistência mesmo. Eu, por exemplo, parei de comprar revistas de moda, porque a qualidade é lastimável… Vamos ter que ser meio radicais, senão a coisa não vai para frente.

        (À propósito, concordo muito que quem está de fora está enxergando melhor. Eu sou formada em Letras, na verdade, mas fiz pós-graduação em Moda.)

  • Ingrid Guerra

    Ao que tudo indica, não é apenas no Brasil que o jornalismo de moda é feito com criticas rasas ou inexistente. Na verdade, o assunto é polêmico e bastante discutido. No livro Moda: uma filosofia há um capítulo falando super bem sobre isso como fenômeno mundial. Eu sou formada em jornalismo e pós-graduada em moda e sempre me incomodei muito com a forma como as coisas são apresentadas ou como os assuntos referentes ao vestuário são abordados. Já tive uma porção de blogs em que escrevi a respeito e hoje faço um exercício de percepção e apresento meu ponto de vista sobre os desfiles no blog No Hay Moda. Acho que uma boa forma de fugirmos das armadilhas da profusão de informação rasa é criarmos nossos próprios métodos de avaliação. Afinal, muitas vezes os discursos são mais bem produzidos do que os produtos e avaliar algo apenas pelo que é dito sobre ele, sem observar o produto em si (e confiar na suas percepções sobre aquilo) é um grande erro, tanto na moda como na vida. Grande abraço para vocês, gurias. | http://nohaymoda.wordpress.com |

    1. Bruna Martins

      Ingrid, seu comentário me lembrou muito um podcast que ouvi esses dias sobre o problema de utilizarmos metáforas demais: as pessoas vão criando interpretações diferentes para a metáfora, para o discurso, e não para o fato em si. O podcast é o Mupoca número 45, acho que vale muito a pena escutar. Concordo muito com você!

  • Adri

    Ótimo post para refletir e muito. Seria bom se os jornalistatas informasen mais sobre coleções conceptuais e a inspiração dos designers ao realizarla. Ajudariam a educar o publico e a eles entenderem que muitas é artístico não para consumo.

    Dica: adoro o blog e sempre abro pelo computador, hoje to abrindo pelo celular e as letras são muito pequenas e dificultan a leitura. Beijooos

  • Bruna

    Oi xará, você chegou a ver o documentário September Issue? Tem na netflix tb, e é sobre a edição de setembro da vogue dos EUA, que é uma super publicação e etc… Tava vendo de curiosa mesmo e lá mostra direitinho como a própria editora da revista palpita nos desfiles e coleções das grandes marcas… Pode ser muita ingenuidade minha não ter percebido isso antes, mas fiquei me sentindo uma completa idiota.
    Tipo, oi? Como assim o estilista da marca só manda pra passarela aquilo que ela gostar? Assim ela fala bem na revista e usa as roupas no editoriais, é isso mesmo? Pqp…
    Já não consumia conteúdo das ditas revistas de moda, agora então… Tô melhor aqui na internet mesmo!