O que um corte de cabelo pixie pode fazer por você

Por Girls With Style / gws@gwsmag.com

pixie hair

Eu era dessas que chegava no salão munida de várias referências – seja recorte de revista, print no celular ou pastinha no Pinterest – e com muita expectativa. Sempre esperava sair de lá me sentindo outra Mariana – e nunca funcionou. Em parte porque um processo de transformação pessoal não é simples assim. Depois que entendi isso, a única coisa que eu queria mesmo era um corte prático. Os outros, você seguiria admirando pelo Instagram. E foi nessa que eu senti meus olhos brilharem de novo – mesmo sem querer acreditar. Primeiro a gente começa juntando referência do que poderia realmente ficar bom na gente, depois sai jogando um verde com os mais chegados pra ver se colhe maduro. Pensa, pondera, decide, desiste, decide de novo, liga e marca um horário – antes que desista mais uma vez. E foi! Sem muito planejar, com referências que não casavam entre si, sem muita ideia do que eu queria, mas sabendo exatamente o que eu não queria, eu fiz o famoso pixie, conhecido por aqui também como “joãozinho”, uma forma sutil de dizer para mulheres que você está investido em um corte considerado masculino.

Tudo que eu escrevi até agora, foi pra chegar aqui. É aqui que realmente começa o sentido deste texto. É uma reflexão (ainda pequena) do impacto de um corte de cabelo quando ele foge do convencional, do que se espera de um mulher.

Primeiro, antes que você perceba como isso pode afetar você, é visível o impacto nos outros. As pessoas em geral não entendem e querem saber por quê; “afinal, é uma mudança muito drástica!”, disseram. Teve quem perguntou se era promessa e quem também agradeceu por não ser “uma dessas doenças que faz cair o cabelo”. Gente que perguntou se eu era doida, ou se estava passando por algum momento difícil. Uma hora você se acostuma e responde quase no automático que não tá doente, não era promessa, que cortou porque tinha curiosidade, que gostou bastante do resultado. É muito difícil para a maioria das pessoas, entenderem que sim: Ter um corte pixie é uma escolha feliz, saudável e resultado de muita resolução com a sua autoestima, não ao contrário.

E aí você vivencia o dia a dia. E nem tudo é foto de Instagram. Acordar parecendo uma catatua é de lei; tem dia que ele não abaixa, ou que não desamassa; e que fazer um rabo era mais fácil; tem dia que você se olha no espelho de camiseta e calça de pijama e se acha sim, a cara do seu irmão sem barba.

Mas é sim libertador. Você se testa e reflete sobre padrões, sobre cultura e empoderamento; dias que você nem acredita que cortou, mas agradece mentalmente ao seu cabeleireiro por não ter te dado tempo de pensar duas vezes. E nesses dias você consegue ver o que o tal do Joãozinho pode fazer por você.

Você passa a reparar no que antes não fazia diferença, como o formato da sua cabeça. Eu já me peguei em frente ao espelho, enquanto secava o cabelo, observando o que antes eu nunca tinha dado bola, mas agora eu conheço exatamente como é. Um corte de cabelo pode te dar a chance de se conhecer mais por dentro e por fora. Ou em como naquela partezinha ali ele vira de uma forma diferente, ele tem um redemoinho…

Sem meus quase 50 cm de cabelo para jogar para um lado e para o outro, eu tive que pensar em outra forma de me sentir feminina e sensual porque não ensinam isso pra gente. Ensinam a sermos dependentes do cabelão. Eu sempre me ancorei no cabelão (e nas suas infinitas jogadas) para completar o sorriso, para fazer charme, para me sentir mais feminina e até mais menininha, quando queria. Eu tive que começar a prestar atenção em mim. Em meio a tantas coisas no dia a dia, eu tive que me forçar a prestar atenção em mim para descobrir o que sempre esteve ali, mas eu nunca tinha dado importância. E aí você percebe mãos, gestos, novas formas de sorrir e quando usar cada uma delas. Valoriza também sua postura e a forma de andar. E sem tanto cabelo na cara, aguça mais o olhar.

A gente cresce com esse complexo de Sansão, achando que nossa força, nossa chance de ser notada pelos potenciais parceiros sexuais e amorosos e a nossa beleza estão condicionados ao fato de ter um cabelo longo, sedoso, brilhante e com leves ondas. Mas tem um mundo aí de variedades que precisa de visibilidade e de estímulo. E as mulheres não são incentivadas a refletir sobre isso. Outra coisa que o meu Joãozinho me deu foi essa vontade de parar um pouquinho e me perguntar “por que?”. Por que as pessoas estranham? Por que a gente existe tanto receio? Por que esse estereótipo besta da “maria sapatão”? A gente vai refletindo sobre uma coisinha aqui, outra ali… E quando vê, já refletiu um bocado sobre como a mulher é vista, tratada e o que se espera dela nessa sociedade.

Não é que você tem que cortar, ou tem que deixar natural, ou tem que deixar crescer… Ter, a gente não tem que nada! Mas se dar a chance, se permitir e tentar, pode levar a gente muito além do que a gente imagina.

— ♥ —

assinatura-de-post-mariana-barbosa

Tags:


7 + 3 =


3 Comentários

  • Keila

    É tudo isso e muito amor próprio envolvido num corte de cabelo.

  • talita

    tombou! é isso mesmo. cortar o cabelo pixie foi uma das maiores experiências que eu me proporcionei. no fim é só um corte. é só cabelo. mas o que mudou em mim fica. fica e evolui! <3

  • Evana Izabely

    Muito bacana teu relato! Enquanto eu lia, fiquei pensando na minha experiência com cortes de cabelo durante a transição capilar, que foi algo que me fez amadurecer muito nessa questão do amor próprio e tal. Se eu fosse passar por todo o processo de liso para cacheado hoje, certamente investiria em um pixie sem medo de ser feliz. :) E mesmo agora, quando eu resolver passar a tesoura de novo, é uma opção…