Para garotas da pele preta, branca, amarela ou de qualquer cor que seja

Por Girls With Style / gws@gwsmag.com

Por: Luiza Brasil

Luiza-Brasil

Era uma vez uma menina que nasceu quando a década de 80 começou a se despedir. Na escola, os amiguinhos a adoravam não só pelos enfeites de cabelo em formato de bombom, mas também pela sua baixa estatura, o que permitia com que eles a colocassem no colo e a levasse pra lá e pra cá. Adorava assistir Xuxa, Carrossel, Chiquititas, além de outros clássicos infantis e -espante-se – amava o Bom Dia Brasil. Amigos não faltaram. Entre “nerds” e “patricinhas”, o que lhe importava mesmo era o look da festinha do próximo final de semana.

Até aqui, essa história lhe soa familiar com a de qualquer menina de classe média? Pois é, para mim também. Mas essa “chave virou” no começo da fase adulta, quando me formava no ensino médio e uma amiga, também negra, me perguntou se nunca havia sofrido preconceito na escola. Sem hesitar, respondi que não. E ela, que havia uma condição de vida muito similar à minha, relatou um episódio que marcou sua infância: o fato de terem falado que ela tinha aquela cor, pois havia caído na lama. Aquilo ficou na minha cabeça e, a partir de então, me gerou uma reflexão: apesar de não ter sofrido nenhum tipo de discriminação direta (até então), as indiretas foram inúmeras.

Minha primeira boneca mais próxima do meu tom de pele foi a Xuxa “Morena” que, apesar da pele marrom e dos cabelos negros, conservavam os traços nórdicos e cabelos lisos. Esse mesmo ícone de várias gerações de baixinhos, mesmo que inocentemente (ou não), também contribuiu para a minha infância “white 90”. Afinal, quem não sonhava em ser uma Paquita?! Eu não. Entre “Pituxas”, “Catuxas”e outras “uxas”, era muito distante de mim todo aquele referencial de beleza tão loira, tão “lisos”.

No final dos 90’s a coisa começou a melhorar: Surgiu a Mel B das Spice Girls e a Pata, amiguinha “chapa-quente” da protagonista de Chiquititas. Seus cabelos, mesmo que timidamente cheios e tipos de penteados, aposto que foram animadores para uma leva de meninas, que assim como eu, não tinham ícones em quem pudessem se espelhar além de Blossom’s, Punky’s e Fadas Bellas que apenas, não me representavam.

Mas como diz o ditado, “nada é tão ruim, que não possa piorar” e na fase adulta a coisa pegou um pouco mais. Apesar de me considerar “desencanada”, alguns fatores como um relacionamento interracial e oportunidades de trabalho fizeram com que eu ficasse com antenas mais ligadas. Olhares de estranhamento em filas de boate que não afetavam à mim, mas principalmente quem estava comigo, apelidinhos e eufemismos que “mascaram” a minha raça ou conversas que tentam “amenizar um problema” do tipo “mas você não é tão escura assim” ou “mas você tem os lábios finos”. Desde quando ser chamado de negra é uma ofensa?! Na sociedade brasileira, uma sociedade mestiça, encaramos com naturalidade todo e qualquer tipo de preconceito velado.

O cabelo, é outro capítulo à parte. Sempre conservei minhas madeixas “au naturel” ou rastafari. Mas diante dos olhos de grande fatia da população, o cabelo “étnico” (que termo detestável!) só é mais bonito (ou aceitável) quando ele “faz cachinhos”. Ainda não encontrei na indústria nacional nenhum leave-in, creme de hidratação ou produtos para cabelos crespos que não constassem a seguinte rotulação: ativa os cachos, umidifica e reduz o volume”. Cabelos de negras devem ser domados e disciplinados? Produtos de beleza? Maquiagem? Houston, we have (another) problem. Se você não tem a oportunidade de tê-los da gringa, aceite a tonalidade “morena escura” que dói menos.

Mas isso tudo me serviu para ter consciência. Consciência de que racismo não é uma questão de ignorância, mas sim uma série de construções ideológicas (bem das espertas) que insiste durante todo esse tempo em legitimar a opressão, a segregação, a padronização. Consciência que esse tipo de educação a gente não aprende na escola, a família tem um papel fundamental na formação e autoestima.

Sou jornalista e tento em doses diárias trazer a importância do negro e de nossa cultura para o meu ambiente de trabalho, que é a moda. Reflexo disso é estar na fila A das semanas de moda nacional ao lado de Costanza Pascolato e, nossa relação ter uma troca de aprendizado – pelos dois lados. Sim, para alguns pode parecer bobagem, mas pergunte para meninas e meninos negros que sonham em seguir carreira fashion o significado disso para um meio que aqui no Brasil é considerado elitista e discriminatório.

Temos Lupita como a mulher mais linda do mundo, Beyoncé reinando na música, Rihanna, Pearls Negras, “made in Vidigal” conquistando o mundo, mas faltam negras em nossas passarelas, campanhas publicitárias, na mídia em geral. Além de médicas, psicólogas, publicitárias… Mas sem estereótipos, apenas como uma bem-sucedida mulher, profissional.

Esses dias conversei com minha mãe sobre o assunto e seus variados desdobramentos. Diante dela estava sua filha, mas também uma mulher segura de si e muito bem resolvida perante tudo isso e ela me perguntou “Luiza, o que foi que eu fiz de diferente?”. A reposta foi simples: “Nada, apenas me tratou igual”.

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