Por um mundo em que “Gorda” seja somente uma característica e não um estigma

Por Girls With Style / gws@gwsmag.com

Por Vanessa Rocha:

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{Ilustração Negahamburguer}

Gorda. Essa palavra que na nossa sociedade virou um estigma, foi carimbada na minha testa ainda muito cedo, quando eu era uma criança de apenas sete anos. Desde então, fui obrigada a carregar o peso da incompreensão e da falta de tolerância alheia. Aprendi desde pequena que eu era basicamente um lixo de criança. Assim, dramaticamente mesmo. Não faltava quem parasse minha avó na rua para mandar ela me levar a uma consulta no pediatra, porque até de longe se podia ver pelo meu peso que eu não era saudável, mesmo que os resultados dos meus exames dissessem o contrário.

Aprendi ainda nessa época que eu devia me esconder no meio da multidão, porque eu nunca seria tão bonita quanto as outras crianças. Sempre que havia um concurso de dança na escolinha e eu participava, nitidamente podia sentir os olhares de pena voltados em minha direção, mesmo que eu fosse a melhor bailarina da turma. E olha que eu dançava e ainda danço melhor do que muita gente magra que eu conheço.

Foi mais ou menos nessa época também, se me lembro bem, que me ensinaram que eu jamais poderia ter uma relação normal com a comida, porque eu era GORDA. Sempre que eu ia nas festas de aniversário dos meus amiguinhos de escola, havia por lá um pai ou uma mãe para me dizer que eu não deveria pegar um pedaço de pizza da bandeja ou um docinho da mesa, porque já estava bem acima do meu peso e que isso era feio, porque ninguém gostava de mulher gorda. Toda essa “informação” foi devidamente assimilada por mim, enquanto uma boa criança e se tornou o foco da minha infância. Enquanto as crianças normais se preocupavam em escolher os lápis para sua pintura, eu me preocupava em opções de lanche escolar livres de gordura. Enquanto as crianças aproveitavam seus saquinhos do Dia de São Cosme e Damião, eu me preocupava em saber se eu poderia comer uma bananada porque eu amava sentir aquela textura na boca. Enquanto todas as crianças brincavam de amarelinha, eu me escondia em casa entre os livros tentando entender porque eu tinha nascido gorda e feia.

Durante a adolescência o peso desse estigma aumentou absurdamente. Hoje, escrevendo esse texto, reconheço que nem eu mesma sei como suportei tanta pressão. Aliás, não posso dizer que suportei, já que surtei aos 17 anos e parei de comer – literalmente- ao triste ponto de cheirar um biscoito recheado enquanto lágrimas escorriam dos meus olhos. Eu chorava diante da loucura, mas prosseguia nela. Não podia recuar agora, faltava tão pouco para entrar em uma calça tamanho 38. Só precisava aguentar mais um pouco, só mais um pouco e então eu seria finalmente feliz. Sim, porque ninguém que esteja isolada em casa, sem comer absolutamente nada, dormindo para não comer, é feliz. Nunca cheguei no manequim 38. O surto em questão só me rendeu infelicidade e uma gastrite maldita que carrego até hoje.

O tempo passou e eu nunca mais tive a oportunidade de encontrar com todas aquelas pessoas que destruíram minha autoestima de forma tão cruel desde quando eu era criança. Tirando as que são da minha família, nunca vou poder dizer a elas o mal que elas causaram na minha vida e o tanto de tempo que demorei para entender que eu também poderia ser bonita e merecedora de coisas boas na vida, ainda que eu continuasse sendo gorda. Fico pensando se as pessoas sabem o que o peso do preconceito delas pode causar na vida de uma pessoa. Sinceramente acho que prefiro nem saber a resposta. Prefiro acreditar na utopia de que caminhamos, ainda que a passos de formiga, para uma sociedade mais justa onde todos terão direito de serem como são, livres de cobranças ou julgamentos.

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