Relato: A vez que eu decidi abortar e a vez que decidi seguir com a gravidez

Por Girls With Style / gws@gwsmag.com

*Por ser um assunto muito pessoal, que envolvem outras pessoas, a autora do post optou por não se identificar.

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2007. Eu tinha 20 anos e o pai do filho que carregava na minha barriga também. Nossa rotina se dividia em maconha, trilhas, alimentação vegetariana e yoga. Eu morava com meus pais, ele também. Não sei dizer de que lado da linha tênue entre a vagabundagem e o desapego saudável nós estávamos, mas chuto que do primeiro. Namorávamos há uns 8 meses e eu já tinha absoluta certeza de que ele não era o cara com quem eu iria casar. Sempre fui muito realista nesse sentido. Viajamos pro sul no início daquele mês, eu tomava pílula anticoncepcional e transamos uma vez só na viagem porque, sei lá, o relacionamento já tava meio esquisito. Qual era a chance de eu ficar grávida? 2%, ou seja, grandes. Já tinha escutado essa do “engravidei tomando pílula”, achava que era ladainha. Não é. A gente engravida tomando pílula, usando DIU, usando camisinha, tomando pílula do dia seguinte, tenham na mente de vocês que não existe método anticoncepcional 100% eficaz. Pode googlar.

Ainda sem saber da gravidez, começaram a aparecer os sintomas: vômitos todo dia após cada refeição, um sono que me impedia de TUDO, uma dor de cabeça forte o suficiente pra eu pedir pra minha mãe marcar um neurologista, até hemorróida eu tive. Demorou um mês pra me tocar do que tava acontecendo… eu tava grávida. “Vou ter, óbvio.” “Não vou ter, óbvio”. As duas opções fazem sentido nessa hora e ficam passando na sua cabeça. “Sou totalmente contra aborto.”- dizia meu namorado que aparentava não fazer a menor ideia do que estava prestes a acontecer nas nossas vidas.

O futuro era claro até então: várias viagens já marcadas, a volta pra faculdade, o término do namoro com o pai do meu futuro filho. Eu ainda queria tudo aquilo.  Em momento de frieza liguei pra famosa clínica de aborto e marquei. Não pensei em mais nada. Fui lá no dia e hora marcada com minha irmã e o carinha, super revolts, porque eu tinha tomado aquela decisão. Tem um pré exame lá e CLARO que: “então, a senhora terá que fazer um ultrasom porque o feto tá muito pequeno e…blablabla” não ouvi mais nada. É um sinal cruel do destino. Não vou conseguir fazer esse aborto. Fui na ultra e doeu. Ouvi o coraçãozinho do bebe bater, vi aquela sementinha que tava ali. Perdi a frieza. Chorei de emoção. Guardei aquelas páginas num cantinho do armário e elas tão lá até hoje. Fui conversar com minha mãe, disse que não ia mais fazer aborto, que não podia. Foi aí que ela bateu o pé no chão e disse que eu tava louca e me mostrou por A+B que eu não tava pensando direito, conversou por horas comigo e eu me conheço, sei que não teria “escutado” minha mãe se ela não tivesse só me ajudando a tomar a decisão que na verdade eu mesma queria tomar, me dando força pra uma vontade que eu estava com medo de assumir. Depois de uma noite bem dormida, voltei a ser racional: “Tenho que pensar em mim e não quero isso agora e não quero isso com ele”. E marquei o procedimento de novo e dessa vez minha irmã não podia ir. Fui eu e meu então namorado.

Vou te contar, a clínica era bem limpinha e parecia um consultório médico mesmo, não tinha vibe clandestina, como imagino que locais mais humildes devem ter. Há 7 anos, o aborto custava R$1000,00 e já tinham me falado que era papo de 15 minutos. Confesso que entrei na salinha de avental aberto na frente, sem medo. 15 minutos depois acordei num ambiente meio “fui abduzida por um disco voador”, numa maca, com um cara tirando um lençol ensopado de sangue da minha punany e uma mina deitada em uma maca ao lado. Não sei se era o efeito do remédio mas a sensação do cara tirando o pano de dentro de mim, era tipo ver um mágico tirando aqueles lenços coloridos infinitos da cartola, o pano não acabava nunca. E essa não foi a parte mais bizarra do dia.

10 minutos depois de ter acordardo, a enfermeira veio: “Meninas, vocês já estão prontas, querem que avise aos seus acompanhantes que vocês estão descendo?”. Nós duas concordamos. Nos colocaram sentadas num sofazinho com tv e biscoitos enquanto aguardávamos notícias dos respectivos companheiros. “Senhoras, eles não estão aqui.”. PERAÍ, OI? Eu tava tão zonza naquele momento que não conseguia imaginar o que pudesse ter acontecido. Mas é claro, que aquele mesmo cara que se dizia em perfeitas condições pra criar um filho pro resto da vida, que estava super à disposição pra cuidar de uma criança 24 horas por dia, não tinha aguentado esperar 15 minutos enquanto a namorada sofria essa experiência traumática. E não, ele não estava com fome e foi fazer um lanche ou algo do tipo. Ele convenceu o namorado/marido/sei lá, da outra mina da maca ao meu lado de ir pra CACHOEIRA. E claro que o celular não pegava lá e claro que eles demoraram quase 1 hora pra voltar. Não preciso dizer que o relacionamento acabou menos de 1 mês depois e o trauma de ter feito o tão repudiado aborto foi substituído pelo alívio de ter me livrado de ter um filho com aquele sem noção (que tinha bom coração, só era extremamente irresponsável) que obviamente não estava pronto para ser pai. De uma hora pra outra, o enjoo, a dor de cabeça, o sono e a hemorroida se foram. Eu voltei pra faculdade, viajei dois meses depois pra Europa e voltei a ser a menina de 20 anos que precisava ser naquela hora.

2014. Depois de uma penca de relacionamentos fracassados, 4 anos que o amor da minha vida tinha esbarrado comigo e há quase 3, a gente tinha casado, com direito a vestido, bolo, festa e dança. Com direito também ao nosso apartamento com um quarto vazio que a gente usava pra hospedar os amigos de fora quando eles vinham pra cá. Eu estava estabilizada no trabalho. Como sempre, eu tinha algumas viagens planejadas para as próximas férias (mais ainda agora que eu tinha meu próprio dinheiro). Muitos dos nossos amigos já tinham filhos, mais de um até. Outros, viravam a cara e falavam que a gente era doido, que “ainda tínhamos muito pra aproveitar”, quando a gente cogitava essa possibilidade. A previsão? Daqui a 5 anos, SE a gente for ter filhos. Tadinho do meu marido, era o que ele mais queria desde que nos conhecemos. Mas como sempre, os homens mal param pra pensar quando falam sobre “filhos” antes de tê-los.

Vira e mexe eu via um fantasminha correndo pela casa. Era o instinto materno, gritando comigo. Num certo momento tive um estalo: “Eu quero.” É um chamado da natureza mesmo. Eu me imaginava no meio da natureza, de cócoras, parindo uma criança apoiada numa árvore. Juro que quase não deu tempo de planejar, ou fazer contas ou combinar de transar no dia x pra engravidar. Minha menstruação nunca mais chegou. Curiosamente, dessa vez também não teve enjoo, não teve hemorroida, não teve dor de cabeça lancinante. Teve sono e teve fome, tenho que admitir. Senti aquela coisinha sugando minhas energias desde o primeiro dia. Teve estresse também, mas um estresse diferente. Ele não era causado pelo meu bebê, por eu não saber o que fazer com ele, era justamente o oposto. Era uma sensação tão perfeita, que eu sentia que ninguém tinha o direito de compartilhar comigo. Eu agora espero esse bebê com uma ansiedade do tamanho do mundo. Conto os dias pra ele chegar, apesar de não saber ao certo quando vai ser.

aspas-abortoResolvi contar essas historias, depois de ter visto vários depoimentos pró e contra aborto no meu facebook. Não preciso dizer que sou uma das que apoiam que tal decisão deveria ser única e exclusiva da mulher que carrega o bebê no seu ventre (aliás se tem um único rótulo que gosto de me dar é o de pro-choice em todos os aspectos). Se eu não tivesse sido bem orientada e não tivesse encontrado essa clínica limpinha mas ainda ilegal pra passar por esse procedimento, provavelmente eu não estaria casada, bem estruturada (psicologicamente) e super feliz aguardando meu filhinho que veio na hora que eu mais quis na minha vida. Eu não teria passado pelas experiências que me preparam ao longo dos anos pra querer isso, para estar pronta para isso, para estar com um homem que realmente será pai.

Essa é a minha historia. Não julgo a historia dos outros, afinal ninguém conhece de verdade o sentimento, o histórico emocional e as expectativas do outro. E são essas questões que devem ser levadas em conta, quando se precisa decidir se vamos colocar uma vida nova nesse mundo e não questões do tipo religião, moral e tradição (dos outros).

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