Há esperança para o rock nacional: Entrevista com Selvagens à Procura de Lei

Por Carol Guido / carol@gwsmag.com

No meio da semana que os protestos começaram a pipocar pelo país, recebi um e-mail da Universal Music apresentando uma nova banda de rock nacional chamada Selvagens à Procura de Lei. De cara já curti os caras, pelo nome, pelo timing que o e-mail chegou e pelos vários artistas (tipo Dado Villa-Lobos e Marcelo D2) que deram ótimos depoimentos sobre a banda, olhaí:

Depois, fui descobrindo um pouco mais sobre a história dos Selvagens, que começaram a banda em 2009, em Fortaleza. A banda é formada por quatro caras: Rafael Martins (vocais, guitarra), Gabriel Aragão (vocais, guitarra), Caio Evangelista (baixo) e Nicholas Magalhães (bateria).

E aí por último fui ouvir o CD (tem ele completo no Deezer). Me amarrei muito. Acho que há muito tempo não ouvia uma banda rock nacional que realmente gostasse. E Selvagens é mesmo muito bom. E vocês vão entender melhor o que falei sobre o timing dos protestos quando ouvirem a música “Brasileiro”. Aqui o clipe dela:

 

Carol GWS: A gente já viu artistas importantes falando de vocês, ouvimos as músicas (e concordamos com eles). Como é a sensação de ver os seus próprios ídolos curtindo a tua música? Existe uma pressão para estourar? Como funciona isso na cabeça de vocês?

Gabriel Aragão: É muito, muito gratificante. O Dinho é um ícone do rock nacional. O Dado escreveu história junto com Legião Urbana. O D2 levantou importantes bandeiras nos anos 90 e 2000. O Yuka é um dos letristas mais criativos que o país já teve. Acredito que chegamos até aqui com muita dose de coragem, sinceridade e foco. Nós quatro já somos pressão o suficiente para nós mesmos. Somos muito conscientes de onde podemos chegar como banda. Sabemos que só depende de nós.

GWS: A gente sabe que o Brasil é cheio de diferenças regionais e como cada lugar influencia de maneira diferente na nossa cultura. Como é ter uma banda de rock em Fortaleza? Como a cultura local influenciou a música de vocês?

G.A.: Estamos numa geração influenciada pelas mesmas coisas de um jeito muito profundo. A internet criou um novo sentimento de união, mesmo que isso signifique estar sozinho no seu quarto. Daí o tema de “Juventude Solitude”. O rock em Fortaleza é o mesmo de São Paulo, que é o mesmo de Seattle, que é o mesmo de qualquer lugar do mundo. Na época que começamos a tocar, existia uma ideia de misturar o modelo clássico do rock com instrumentos regionais. Hoje em dia consigo entender a importância desse estilo, mas na época me soava como algo muito taxativo. Por isso, no primeiro disco, decidimos ser uma banda atual, moderna como em qualquer lugar do mundo, mas que traria uma visão particular na composição, no tema, na letra. Foi assim que surgiu “Mucambo Cafundó”, por exemplo.

GWS: A internet ajuda a divulgar o trabalho da banda? Como vocês vêem a relação entre a disseminação de conteúdo na internet e os direitos autorais?

G.A.: A internet é uma realidade com a qual todos nós crescemos. Eu vivo essa realidade desde os 10 anos. Provavelmente a minha banda nunca vá saber o que é ter tantos discos no topo de vendas do ano. Mas acredito que isso não importa, pois a criatividade musical nunca dependeu de discos de ouro. Também acredito que o capitalismo sempre vai se adaptar a qualquer situação enquanto houver abertura para isso. Enquanto fã de música, gosto de comprar o material dos meus artistas preferidos, e ainda tenho muitos CDs. Não acho que essa demanda vai morrer. Os direitos autorais vão continuar existindo e cumprindo a sua função. Mas a coisa que mais me preocupa mesmo é que as pessoas não escutam mais música juntas. Essa é uma das melhores experiências da vida: colocar um LP para rolar e ouvir do começo ao afim junto com os seus amigos. São as melhores lembranças da minha vida, da infância à vida adulta. Só assim você pode apreciar música completamente, porque todo mundo escuta a mesma canção de um jeito diferente e isso precisa ser compartilhado.

GWS: Não poderíamos deixar de citar que logo que ouvimos “Brasileiro” fizemos ligações com o momento político atual do nosso país. “Os nossos heróis de verdade morreram por covardia”, mas vocês acham que os novos heróis que vem por aí também vão sofrer do mesmo mal ou mudou alguma coisa?

G.A.: Quando escrevi essa frase estava pensando em figuras como Tiradentes, Antônio Conselheiro… Mas não pude deixar de pensar também nos heróis do dia-a-dia. Empregadas domésticas, professores, assistentes sociais, médicos, advogados, todos os trabalhadores honestos. Somos muito covardes com nós mesmos. Consideramos nossas celebridades o padrão a ser seguido, mas esquecemos que somos nós a base da sociedade. Se o povo realmente acordou, espero que a arte e todo e qualquer forma de entretenimento seja um reflexo da intimidade e da cultura desse povo e não um produto testado em laboratório – feito para durar tempo suficiente para chamarem de “efeito viral” e, depois, divulgado como se representasse a demanda de toda a população.

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