Sobre a culpa e a minha amiga Rafa.

Por Girls With Style / gws@gwsmag.com

Por: Jana Rosa

A primeira vez que aprendi a me sentir gorda, já faz muito tempo. Tinha uma melhor amiga grude bem baixinha, magrinha, aquelas minas com corpo bem pequenininho. Na piscina brincando com ela (sim, eu ainda era criança quando aprendi a ser gorda), minha irmã me chamou num canto e disse: “Você é enorme perto da Rafa, ela é fininha e você é gorda, você é larga”.

Eu me senti gorda, horrível, como nunca tinha percebido aquilo? Tinha um corpinho bem definidinho do ballet, mas nunca mais quis ir pra praia, acho que fui umas quatro vezes desde então.

Aprendi a me sentir gorda, o aprendizado mais importante da vida de uma mulher (*contem ironia). Depois disso fui cheinha, magra, magrela, tive anorexia nervosa, fui musculosa, enorme, normal, magra, cheinha, gostosa, flácida, celulitosa, normal, bonita. Porem sempre gorda, como aprendi a me sentir.

Mulher aprende desde cedo a se sentir feia, tem todo aquele papo que você já sabe. Quanto mais lixo você se enxergar, mais vai comprar maquiagens caras e roupas que não cabem e você vai acreditar que vão caber, sapatos que doem o pé e prometem te fazer poderosa, tratamentos estéticos que custam mensalidade da faculdade, plásticas que te fazem recomeçar com a cara de uma cantora pop paraguaia. Vai dar muito dinheiro pra muitas pessoas que rezam pra você se odiar mais e mais. Aquela velha historia de como funciona o mundo.

Uma vez engordei e fiquei usando G. Depois emagreci e comecei a usar M. Lembro que contei isso para os pais de uma amiga toda feliz e o pai dela me disse “M? Você deveria usar P”. Não entendi o que ele queria dizer com isso, mas me senti feia e loser.

Quando trabalhava na MTV e usava calças menores do que as que uso hoje, arrumei uma empresaria. Ela disse que eu só cresceria na carreira e seria alguém se usasse manequim 38 e fosse magrinha como as modelos. Ela também me levou numa clínica que fazia tratamentos estéticos agressivos por jabá e tirava mini fotinhos pra Caras em troca, comigo vestida de roupão. Eles tiravam minhas medidas toda semana e gritavam comigo porque eu comia muita cenoura.

Descobri que cenoura engordava, fiquei tão nervosa que chorei e parei de comer, meu cortisol aumentou, engordei de stress, a empresaria disse que não ia mais me levar da Ilha de Caras porque eu era gorda. Eu usava 40.

Encheram a minha cabeça de paranoia a vida inteira, captei a mensagem. Comer é errado, pedir sobremesa coisa de mal amada. Bonito é ser delicadinha, fragilzinha, passar mal se ingerir mais de cinco fatiazinhas de sashimi no jantar no japonês. Tudo inha, Não é feminino comer, porque mulher tem que fazer regime, pra estar sempre magrinha, mas de preferencia que de vez em quando coma uns brigadeiros, só pra postar nas redes sociais hashtags estúpidas do tipo #pénajaca, #gordice, #projetoburka, justificando que errou e que sente bastante culpa.

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Não lembro a ultima vez que 90% das minhas amigas comeram carboidrato na minha frente ou gluten, muito menos açúcar. Janto sozinha em restaurantes na maioria das vezes, minhas amigas não jantam. Algumas não almoçam. A maioria que janta comenta que amanhã vai ter que correr muito ou fala sobre um tratamento estético ou uma médica da vez que dá vitaminas e faz milagre. Algumas me olham com cara de pena por eu sentir fome. Sempre senti pena de mim por sentir fome.

28 anos me odiando, achando tudo o que fiz errado, fazendo dietas imbecis, gastando com médicos que dão anfetaminas assassinas, torrando verdadeiras viagens em tratamentos que congelam a gordura e doem pra burro, vendo só imperfeição no espelho.

Acho que sonhei com a Rafa outro dia e lembrei que meu corpo é realmente mais largo que o dela. Porque ela cresceu e ficou em 1,55. E eu com 1,72. E não sei por onde ela anda, mas acredito que a maldita deve ter muito menos celulite do que eu também, porque sempre teve um corpo incrível. Mas sabe o que acho lindo? Ser alta.

Um dia acordei e me senti normal pela primeira vez. Sem culpa, sem gorda, sem ódio, sem vontade de ser outra pessoa.

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