Sobre a marcha das vadias!

Por Girls With Style / gws@gwsmag.com

Antenadas que são, vocês leitoras já devem ter ouvido falar de uma manifestação neo-feminista que vem se alastrando pelo mundo todo, a muito comentada (e fotografada) Slut Walk (Marcha das Vadias). No Brasil, ela já aconteceu em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Juiz de Fora, Recife, Natal e Salvador.

O movimento começou no Canadá, depois que, durante um ciclo de palestras sobre violência sexual, um policial alegou que as mulheres deveriam se proteger de estupros evitando se vestir como vadias.

Embora esse argumento possa parecer absurdo pra qualquer ser civilizado, ele é comumente aceito por fêmeas e machos mundo afora. Eu, pessoalmente, já vi tarados de todas as espécies jogando a culpa dos seus ataques em quem vitimizaram: pedófilos dizendo ter sido seduzidos por crianças de 3 anos, zoófilos alegando que foram assediados por cães e outras pérolas semelhantes. Nesses casos, a sociedade não tem a menor dificuldade em perceber que o único culpado é o abusador – mas quando a vítima é uma mulher, o que se imagina é que “ela provocou”, “ela pediu”, “ela deixou”, “ela é uma vagabunda que dá pra qualquer um”…

Então tá, né? Errada é a moça que pôs a saia curta ou confiou que não seria forçada a fazer sexo ao ficar sozinha com o cara. Certo e normal é quem obrigou outra pessoa a manter relações com ele, apesar dos choros, gritos e pedidos de ajuda. Totalmente saudável e ético o cidadão que aproveita que a amiga exagerou na bebida pra fazer sexo com ela, independente de sua vontade ou consentimento. Afinal, o tesão é essa coisa avassaladora e incontrolável que nos dá o direito de passar por cima da dignidade de qualquer um… NOT!

É contra a violência sexual, a culpabilização da vítima e o machismo truculento que as vadias marcham. Vestindo estampas de leopardo, meias arrastão, saltos altos e, como não pode deixar de ser, muita coragem e bom humor. Fica dica: se ser vadia é ser livre, todas somos vadias.

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14 Comentários

  • Carol Guido

    Óbvio que uma coisa não justifica a outra. Como um ser humano dotado de inteligência e, principalmente, CONTROLE, poderia justificar que a culpa é das moças despidas?
    Mas, cara, desculpa, não concordo com essa história de liberdade para usar o que quiser sem ter consequencias. Se você se veste mostrando o corpo, você está sim querendo comunicar algo. Esse algo para mim é: quero seduzir. Então se as mocinhas querem evitar olhares ou coisas piores, podem começar vestindo algo que comunique que você não tá a fim de ser assediada.
    E isso não quer dizer que a gente tenha que se vestir como retardadas. Tem muita roupa que deixa a mulher linda e maravilhosa sem mostrar demais.
    A roupa é sim uma forma de comunicação. Quer a gente queira, quer não. A gente não pode usar determinadas roupas no trabalho, por exemplo. Existem festas que exigem um determinado dress code. E por aí vai.
    Na rua é a mesma coisa.
    Eu aconselho: vista-se de vadia entre quatro paredes e com um cara confiável.

  • Nuta Vasconcellos

    Carol, eu concordo com roupa é meio de comunicação, mas assim como toda comunicação existe uma falha. Sobre meu estilo já ouvi dizer que sou fashion, grunge, rockeira e até lésbica. Ou seja, tudo é uma forma de interpretação. O que vc não pode é transformar a sua interpretação em verdade e fazer com o outro o que vc ACHA que ela está querendo dizer. O que vc considera vadia, a mulh er que está usando pode estar achando sexy. O que é sexy para ela, não necessáriamente é sexy pra vc. Ela está se achando linda e feminina e vc achando ela uma vadia. Não tem certo e errado, tem respeito.

  • Ju Costa

    Ficou demais o post! :) Parabéns pela iniciativa de escrever sobre um assunto que ainda não é muito comentado ou bem aceito pela maioria.
    Acho que tá mais do que na hora de a gente começar a pensar que pedofilia deve ser tratada como doença e levar isso a sério, sim. Ninguém em sã consciência é ou seria capaz de fazer isso e o pior: justificar colocando a culpa na vítima.
    Concordo com tudo o que a Helena disse. Apesar de a roupa ser sim um meio de comunicação, isso é muito relativo. Acho que se tornar vulgar ou demonstrar alguma coisa “sem querer” por causa de uma roupa acontece quando não se tem bom senso. Você pode ou não se tornar vulgar por estar usando uma roupa curta ou decotada, por exemplo. O que vai definir isso é o teu comportamento, que conta e muito. E independente da pessoa se mostrar vulgar ou não, o fato é: Uma coisa não justifica a outra, nunca.
    Como a Nuta disse, não tem certo ou errado, tem respeito.
    Sobre a Marcha das Vadias em si, apesar de pequena, aqui em Juiz de Fora, repercutiu de um jeito bem legal até. :)

  • Helena Martinelli

    Pô, tô aqui emocionada. Escrevi esse texto sem muitas esperanças dele ser publicado pela dureza do tema e cá está ele provocando discussão. Fico feliz de verdade!

    Carol, eu concordo com a Nuta. E acrescento: estupro não é crime de paixão, é crime de ódio. Tem mais a ver com poder do que com tesão, acredite. Se esconder a pele fosse solução, as muçulmanas nunca seriam vítimas de violência sexual, mas a gente sabe que elas são tão suscetíveis quanto nós.

    Eu entendo quando você fala sobre se preservar. Eu, pessoalmente, não gosto de usar roupas curtas ou justas, mas acho frustrante ter que viver com medo. Porque a verdade é que a gente nunca sabe o que vai despertar o comportamento do agressor… Vai que ele gosta de uma baixinha de salto? Ou tem tara por nariz de batata?

    E eu não vejo problema em querer seduzir, como você colocou. Querer que as pessoas queiram fazer sexo comigo não é querer ser estuprada. É querer ser cortejada, desejada. Acho bem, bem diferente.

    Beijo pra ti e pra todas que estão lendo, comentando e refletindo!

  • Helena Martinelli

    Ah, eu fui pra Marcha aqui em Salvador e foi maravilhosa. Foi no meio de um desfile cívico (O 2 de Julho, Independência da Bahia), começou com menos de 50 pessoas, mas a população aderiu e engordou a conta pra quase 400. Foi demais, demais, demais. Mal posso esperar pela próxima!

  • Cláudia

    Parabéns, Lena! Muito bacana esse post.
    Recomendo a leitura desse texto também: http://escrevalolaescreva.blogspot.com/2011/05/dicas-para-prevenir-estupros-nao-se.html
    Complementares.
    Bjos

  • Carol Guido

    Gente, mas foi exatamente o que eu disse no começo do meu comentário. Não se pode justificar um estupro pq a vítima estava vestida de forma provocativa (afinal, foi o que a nuta falou, provocativa pra quem?). Aliás, não se pode justificar estupro de forma alguma né? Não tem justificativa. PONTO. I get it e concordo. Em nenhum momento disse o contrário.
    Mas acho que o que eu posso não ter deixado claro é o seguinte: independente da agressão, a mulher que caminha pela rua feliz tem que saber que ela precisa tomar um cuidado com o impacto que causa. A gente sempre vai ser mal interpretados pelas coisas que usamos, falamos, fazemos. Normal. Mas isso não pode fazer com que as pessoas deixem de tomar cuidado, entrando numa linha de pensamento do tipo: “ah, já que posso ser mal interpretada, não vou mais pensar no que falo ou no que uso.” Sabem?
    Acho que existe aí nesse absurdo que o policial disse algo para se pensar sim. E acho que tem mulheres que estão sim usando roupas sem pensar nas consequencias. E é isso que eu não acho legal.

  • Danielle

    Também não concordo com essa história de liberdade para usar o que quiser sem ter consequências.

    Roupa é uma forma de comunicação SIM e nós infelizmente vivemos em uma sociedade muito machista. Logo, as mulheres que se vestem com trajes sensuais são constantemente mal interpretadas.

    Não estou dizendo que essa interpretação é correta, mas é fato que a maioria dos homens julga mal a mulherada que sai vestindo saia curta e decote. (desde o meu pai, que tem uma mentalidade mais antiquada, até o meu sobrinho de 17 anos que fala das “piriguetes”)

    As mulheres muçulmanas são vítimas de violência sexual por conta da repressão que o país onde vivem impõem. Claro que isso não é justificativa, mas é o que acontece.

    Há aproximadamente 5 anos conheci uma garota do Irã que veio defender sua tese de Mestrado aqui no Brasil, e a primeira pergunta que ela me fez foi: “Como essas mulheres tem coragem de sair na rua vestidas ASSIM??”

  • Achados de Moda - Carmen Martins

    100% APOIADAS!

  • Helena Martinelli

    Então vamos concordar em discordar, menines. Porque, da mesma maneira que eu não acho que um homem esteja “se expondo” à violência sexual quando volta do baba (ou pelada, como preferirem) sem camisa, ou quando corre de sunga e tênis na orla, eu não acho que uma mulher esteja se expondo à violência sexual por vestir pouca roupa. Eu acho que o que nos expõe à violência sexual, aqui ou no Irã, é o machismo, pura e simplesmente. Tanto é que quando ouvimos falar de homens que sofrem estupros, normalmente são homossexuais violentados por assim proclamados heterossexuais como forma de punição ou corretivo (pelo menos aqui no Nordeste isso é comum).

    Em tempo, nós costumamos ver os países muçulmanos como machistas, extremistas, onde ocorrem casamentos forçados de menininhas, mas o Brasil é um dos campeões em casamentos e uniões consensuais de meninas adolescentes no mundo, só perde pra Zâmbia e pra Nigéria.

  • Nuta Vasconcellos

    Mais uma vez, tô com a Helena!

  • carolguido

    Pelo menos a gente discorda em alguma coisa na vida, né?
    hehehe
    <3

  • Helena Martinelli

    Tem que discordar de vez em quando pra manter a chama acesa!!!

    =**

  • jessi

    eu concordo e discordo. Roupas comunicam mas nem sempre a intensão da pessoa é dizer aquilo que os outros acham que ela quer dizer. E isso não aconrece na questão ser vadia ou não. Penso sim que, mesmo que uma mulher queira se vestir com pouca roupa, tipo as prostitutas mesmo, e com a intensão de comunicar que ela quer dar mesmo, não justifica ela ser violentada. Ora, mesmo que ela tenha saido à caça e esteja a fim de dar, ela provavelmente quer fazer isso com quem tiver vontade e não com o primeiro que pegar ela na esquina.
    Mas sejamos realistas, nossa cultura é conservadora, o mundo é machista, então fazer algo assim tão forte pode chocar mas não ter o resultado esperado. Sendo que, muitas vezes quando há divulgação por parte de homens é por interesse nas que estão de top less, nunca pelo sentido real.
    Penso que p/ é preciso conhecer as regras p/ saber exatamente como quebrá-las. As regras atuais ditam que mulheres tem que se resguardar, serem de um só homem e as que não são assim merecem ser estupradas pelos homens (animais) que agem por instinto e descontroladamente. Então, p/ mim, é mais eficaz começar com mudanças do tipo no dia a dia mesmo se impor, mostrar a que veio, exigir respeito. Depois que se consegue isso, usar a roupa que quer não importando se o decote vai no umbigo ou se é de beata não vai influenciar tanto sendo que ao menos as pessoas ao redor sabem quem a pessoa é mais distanciado de estereótipos. Seres humanos são muito crueis uns com os outros então esse pensamento meu é num nível mais ideal onde as pessoas aprendem a conhecer as pessoas e mudarem seus pensamentos estereotipados em relação às mesmas.