Sobre a pesquisa do IPEA e mansplaining

Por Girls With Style / gws@gwsmag.com

Por Pollyanna Assumpção:

Eu poderia facilmente dizer que pertenço a essa geração Y que faz de tudo, mas não faz nada profundamente e que por causa disso tem sempre mil projetos ao mesmo tempo. Pois um dos meus trabalhos é como DJ e produtora de festas aqui no Rio de Janeiro. Há duas semanas atrás uma pessoa conhecida no meio, resolveu dar sua opinião sobre uma das meninas que trabalha usando pouca roupa na minha festa Sex Tape como shot girl. É isso mesmo. Ela fica no palco da minha festa, usando o mínimo de roupa possível, jogando tequila no próprio corpo e deixando quem quiser lambê-la, fazê-lo.

Por causa dessa opinião controversa a internet virou um lugar interessante naquela noite de segunda e um bom lugar para análise de discurso. Li muitos homens e mulheres defendendo o direito da shot girl  fazer o que quiser com seu próprio corpo. Li muita gente falando que ela fazia um desserviço ao feminismo. Vi muita gente chamando ela de piranha mesmo. Vi muita gente falando de como se expor dessa forma é desnecessário. A confusão foi tamanha que caiu na imprensa tradicional. A história saiu em vários jornais, sites e ontem ela saiu em um mega ensaio de um famoso portal e tem recebido dezenas de convites pra trabalhar em outras festas.

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Há uns três dias, a shot girl, que também é minha amiga, me mandou um print de um inbox enviado por um rapaz onde ele dizia que queria chupar ela inteira. Ela perguntou por que ele estava enviando aquela mensagem pra ela e ele respondeu que da forma que ela agiu e se vestia, ela estava pedindo. ELA ESTAVA PEDINDO. Quem nunca ouviu ou leu alguém falar que alguém estava pedindo? Foi engraçado isso tudo acontecer tão próximo aos resultados da pesquisa sobre violência sexual divulgada pelo IPEA.

Se você não esteve numa caverna sem 3G nos últimos dias está sabendo de toda a discussão sobre essa pesquisa. Inicialmente eles divulgaram afirmando que 65% das pessoas entrevistadas achavam que mulheres mereciam ser estupradas de acordo com a roupa que vestiam. Dias mais tarde o IPEA admitiu o erro e modificou o resultado afirmando que apenas 26% das pessoas concordavam com isso. Porém gostaria de lembrar a todos que os outros itens da pesquisa não foram modificados: a maioria de 58% ainda acredita que se as mulheres se comportassem melhor haveria menos estupros, 63% deles acredita que “roupa suja se lava em casa” e não devemos nos meter em brigas domésticas de outras famílias e 27% acha que as mulheres devem satisfazer todas as vontades sexuais de seus maridos. A pesquisa resultou no protesto online “Eu não mereço ser estuprada” onde várias mulheres deram seus depoimentos sobre experiências de violência.

Com o erro admitido pelo IPEA, rapidamente todos os machinhos foram pra internet gritar que essas vadias nuas mereciam era mesmo serem agredidas pra pararem de falar por aí. OPA MAS PERA O IPEA NÃO TAVA ERRADO?

Ontem eu estava fazendo meu rolé feminista pela internet olhando as novidades do dia e vi Felipe Neto, famoso por atacar feministas online, fazer vídeos falando mal do assunto, que já mandou seus milhares de seguidores atacar algumas ativistas, escrevendo um texto sobre como devemos respeitar as mulheres. A parte que mais me chamou a atenção foi a que ele disse que agora respeita mais as mulheres e sorri pra elas se sentirem aceitas. SORRINDO PRA ELAS. Olha Felipe, agradeço seu sorriso mas acho que não tem muita utilidade não. Agradeço sua gentileza patriarcal e sua benevolência de macho que enfim aceita as mulheres como elas são, mesmo que elas não sejam do seu agrado como você colocou no texto, mas acho que a luta é maior que um sorriso.

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Acho que a luta começa onde uma menina trabalhando em uma festa não receba um inbox escrito “te chupo toda” e termina em não achar que uma mulher tem que se comportar melhor pra não sofrer algum tipo de violência. Porque ela tá pedindo. Deixa eu falar Felipe, o que eu tô pedindo: igualdade. Não seu feminismo benevolente que surgiu assim DO NADA num momento onde aparentemente ser feminista virou modinha e aumenta seu público alvo.

Um recado pra todos os homens: Nós não precisamos de mansplaining. Pra quem não sabe, essa palavrinha é usada quando um homem tenta dizer qual é o melhor feminismo pra você. Normalmente ele acha que você está equivocada, que aquele feminismo não é correto ou tenta de forma incisiva mostrar o quão correto ele está e você não. Mansplaining é ter um site sobre cultura masculina mas um autor que está toda semana ensinando sobre como o feminismo deve ser. É sobre sequestro de discurso. Quando um homem te diz como deve ser o feminismo, ele não está sendo patriarcal? Quando um homem diz o que uma mulher diz desde sempre, por que ele é ouvido e não é chamado de histérico ou que está de TPM?

Eu poderia passar horas falando sobre a relação entre a garota dos shots ser chamada de piranha, entre a pesquisa do IPEA, entre o feminismo de modinha e o mansplaining, mas encerro apenas com uma frase que twittei semana passada: Não preciso de pesquisa do IPEA pra saber a violência que mulheres sofrem no dia a dia nas ruas.

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