Sobre o filme The DUFF: Quando teremos um longa adolescente sem rótulos ou sem julgamentos de aparências?

Por Girls With Style / gws@gwsmag.com

Por Taís Bravo:

*Aviso: Esse texto contém spoilers do filme The DUFF, mas fique tranquila, se você já viu um filme que se passa em um High School americano, você já conhece essa história.

duff

Não há nada de novo na trama do patinho feio ou da garota estranha, alternativa, das artes – que geralmente é interpretada por uma atriz que se enquadra direitinho nos padrões de beleza, a não ser, talvez, por ter um rosto levemente redondo e usar umas roupas “diferentes”. A missão desse tipo de narrativa é sempre a mesma: transformar a garota estranha e inadequada socialmente em uma garota legal. Essa transformação só ocorre quando essa garota é escolhida por um garoto que representa tudo que há de mais adequado socialmente, porque, além do seu gênero, ele é branco, loiro e forte. É somente quando o garoto popular decide que a garota não é estranha, mas diferente, ou melhor, “especial” que a existência dessa garota ganha validade.

The DUFF – um filme dirigido por Ari Sandel baseado no livro homônimo de Kody Kepplinger que a autora desse texto ainda não leu – cumpre perfeitamente essa antiga trama. Bianca, interpretada por Mae Whitman, é o patinho feio de um trio de amigas e por isso carrega silenciosamente o rótulo de DUFF que é sigla para Designated Ugly Fat Friend – não sei muito bem como traduzir esse horror para o português, mas é algo como a amiga feia e gorda que serve para intermediar o contato entre os caras e suas amigas gatas. No entanto, ser a DUFF de um grupo não é algo explícito, é mais como uma prática inconsciente. Bianca não sabe que é uma DUFF, é um garoto, O Garoto Popular, que lhe informa esse fato. A princípio ela entra em choque até que constata que é verdade: Suas amigas são mesmo mais altas, magras e bonitas; todos os garotos que se aproximam dela na verdade querem saber de suas amigas; ela é a estranha, diferente, feia e gorda. Os passos seguintes são óbvios. Ela resolve que não quer ser uma DUFF e se afasta de suas amigas. O Garoto Popular lhe ensina como ser uma garota mais atraente, mostra como ela deve se vestir, qual sutiã de enchimento ela deve usar e como flertar – tudo de um modo bem leve e engraçado que até nos faz esquecer quão surreal é ter lições de como agradar os homens. Os acontecimentos seguintes seguem o fluxo normal desses filmes: Ela sofre bullying, ele é um babaca, ela sofre, ela se reaproxima das suas amigas, ela tem um insight sobre como todos estão na mesma merda que é o colégio e no fim somos todos DUFF, tem um baile de formatura, um beijo na frente do colégio todo, aquele momento mágico em que a estranha na turma se torna a escolhida pelo Garoto Popular, enfim, o final feliz.

Há algo muito perverso nessas histórias em que uma garota é escolhida na frente de todo o colégio para ser a namorada do Garoto Popular – ou do Garoto Rebelde. Basicamente, esses filmes nos ensinam que você pode ser o que quiser, pode ser diferente de todo mundo do seu colégio, pode ser estranha, pode ser gorda – opa, mais ou menos, afinal, por que não escolhem uma atriz gorda para representar esses papéis? – , desde que o que você é seja considerado atraente por pelo menos um garoto. Todos esses filmes celebram as identidades que fogem do padrão, mas deixam bem claro que há uma condição para isso: Se você é uma garota, sua individualidade só pode ser respeitada se for de algum modo agradável ou atraente.

Também é bastante problemática essa imagem da garota diferente que ao longo do filme se torna especial justamente porque ela não é como as outras. Afinal, como são as outras? Por que afinal, quem é a mulher que cabe exatamente no padrão de normalidade imposto ao seu gênero? Acredito que não existe essa mulher, principalmente, porque esses padrões são caducas.

Podemos pensar em alguns nomes de mulheres consideradas exemplares, pelo menos de acordo com o padrão de beleza, Beyoncé, Kim Kardashian, Gisele… E sempre vai ter alguém para apontar uma falha. A normalidade que esperam das mulheres é construída em limites impossíveis de se enquadrar: é preciso ser bonita, mas não vaidosa; é preciso ser magra, mas mulher de verdade tem que ter uma carne pra pegar; é preciso ser inteligente, mas não convencida; é preciso ser guerreira, mas mulher ambiciosa demais ninguém quer; é preciso ser sexy, mas tem que ter noção para não ser vulgar; é preciso ser uma mãe boa e respeitável, mas não pode viver em função da maternidade e por aí vai… Rótulos só servem para alimentar esses limites ilógicos. Quando Bianca se aceita como diferente, suas amigas lhe confortam dizendo que ela é a mais inteligente do grupo e mais um estereótipo sem sentido é afirmado: As garotas bonitas são burras, você pode até não ser gata, mas é inteligente. Que tipo de conforto é esse? No que isso ajuda nas vidas das mulheres?

Mas, para mim, o que é mais ofensivo nesse filme é a sua gordofobia explícita. Em suas escolhas o filme silencia as garotas gordas, por que claramente considera que a palavra “gorda” é sinônimo de uma ofensa, segundo essa narrativa, se você é chamada de gorda, você necessariamente está sendo xingada. Enquanto associarmos ser gorda a algo depreciativo estaremos todas nos machucando por mais um padrão inventado. O fato é que tamanho não importa ou não deveria importar, não é o peso ou a medida que define qualquer coisa sobre alguém, no entanto, isso se torna uma questão a partir do momento em que só um tipo de corpo é representado na mídia. Atualmente, vivemos um momento em que, graças à internet, mulheres gordas estão conquistando com muito esforço mais espaço na mídia, porque são suas próprias mídias através de selfies, páginas no facebook e blogs. Garotas como Nadia Aboulhoson, Tess Holiday, Jéssica Ipólito e Juliana Romano estão expondo seus corpos pelas redes sociais e forçando a grande mídia ultrapassada a reconhecer que eles existem, sim, e não serão definidos por rótulos ofensivos. Ao reproduzir esses rótulos, The DUFF expõe um cinismo dentro de sua própria narrativa que, ao dizer que somos todas iguais, somos todas a amiga feia e gorda de alguém, não estimula ou valoriza as diferentes identidades das mulheres, mas demonstra como o filme se alinha a padrões e normas sexistas que sempre nos silenciam.

Sigo esperando um filme em que garotas adolescentes sejam protagonistas de suas vidas sem se dividirem em rótulos ou serem julgadas por suas aparências. Enquanto isso não acontece, continuo assistindo My Mad Fat Diary.

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2 Comentários

  • Jade OPS

    Serio! Como não amar alguém que escreve um post assim!Thais somente amor por você!
    É exatamente isso!!! Eu gosto de ver filmes de clichês adolescentes, mas a maioria deles acaba nos deixando pra baixo, eles acabam nos fazendo acreditar exatamente nisso! A necessidade de ter um namorado, ficante, rolo ou sei lá mais o que pra sermos aceitas… E não é assim que as coisas funcionam… Enfim, também espero ansiosamente um filme em que a protagonista tenha um final feliz com ela mesma, sem rótulos ou qualquer outra coisa tipica!
    Amei o blog!!! Mesmo!!!
    Mil beijos!!!
    OPS

  • mariana

    Já to apaixonada por você sz a sociedade é nojenta e preconceituosa, querem o tempo todo nos enfiar seus valores goela abaixo. Dá ver que isso ta em tudo e nós não temos como fugir (não totalmente) desses padrões ridículos e opressores. Até quando teremos que passar por esse tipo de coisa??? af