Documentário GORDA, de Luiza Junqueira do ‘Tá Querida’

Por Nuta Vasconcellos / nuta@gwsmag.com

Se você ainda não conhece a Luiza Junqueira, pode ir se inscrevendo no canal dela o “Tá Querida“. Lá a Luiza faz os vídeos clássicos que você espera de uma youtuber, com dicas, um pouco sobre a vida pessoal, ’50 fatos sobre mim’ e temas importantes como masturbação feminina e gordofobia. O equilíbrio perfeito entre as futilidades que a gente ama e papo sério que podemos e devemos debater.

luiza junqueira Luiza Junqueira do canal ” Tá Querida” e diretora do documentário “GORDA”

Além de youtuber, Luiza é videomaker e juntando o útil ao agradável ela fez em 2013 o belíssimo e poético curta chamado “Espelho Torcido” (te desafio a assistir sem se emocionar). E agora, em 2016, lança hoje no seu canal do youtube o documentário “GORDA”, que ela mesma produziu, dirigiu, roteirizou, editou e fez a coloração, junto com Aline Rosa. Todo o resto, ela teve ajuda de uma equipe composta apenas por mulheres, 15 ao total, que doaram seu trabalho para o projeto.

GORDA

O Espelho torcido foi em 2013 minha tentativa de tentar iniciar meu processo de empoderamento. Na época o filme teve bastante repercussão e a partir disso comecei a aceitar melhor meu próprio corpo.” – conta Luiza.

Daí para o GORDA, foi um pulo: “Quando fui fazer meu TCC no curso de Rádio e TV decidi que faria um filme que proporcionasse a mesma experiência que tive a outras mulheres. E daí surgiu a ideia de fazer o GORDA.”

A intenção com seus trabalhos é dar voz  às mulheres gordas que, assim como ela, enfrentam preconceito diariamente: “Quero que as pessoas entendam que ser gorda é normal e pode ser belo. Quero mostrar que padrão de beleza é uma construção social e por isso pode ser ressignificado. A beleza é uma decisão pessoal.”

O documentário é sobre 3 mulheres gordas, todas com perspectivas diferentes em relação aos próprios corpos. Como essas mulheres foram escolhidas? “São mulheres que foram selecionadas em um formulário online com algumas perguntas acerca do tema do filme. O formulário teve mais de 550 inscrições em apenas uma semana no ar. Como a produção foi pequena, foram escolhidas apenas três mulheres que têm perspectivas diferentes em relação aos próprios corpos.”

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Sabemos que a autoestima das mulheres em geral é baixa e massacrada pela sociedade. Mas sabemos também que as mulheres gordas sofrem ainda mais com isso, a pressão é infinitamente maior. Vivemos em um tempo que a representatividade nunca esteve tão em alta. Mas a mulher gorda ainda assim é raramente vista na TV, em campanhas… Qual a melhor forma de lutar pra isso mudar?

“Acho que ainda não há representatividade gorda pois o capitalismo (sim terei que falar de capitalismo) cria necessidades impossíveis de serem supridas para gerar mais consumo. Então é colocado um corpo magro e quase impossível de se ter como padrão de sucesso e beleza. Quanto mais longe a pessoa estiver daquele corpo, mais indesejável e fracassada ela é. As pessoas continuam em uma busca infinita por um corpo perfeito e consomem produtos de dieta, programas de tv, revistas, cirurgias plásticas, roupas modeladoras, cosméticos, maquiagem… deve ser bem lucrativo, sabe? Mas eu acho que já tá na hora dessa galera cair na real que o público não é um robô de photoshop e as pessoas querem consumir sim e querem se ver representadas no que consomem. É uma pena pois eu acredito que seria muito mais lucrativo um consumo mais consciente e feliz que envolva amor próprio. Mas tenho esperanças que estamos caminhando pra isso. Cada vez mais pessoas estão tomando consciência de si e querendo se ver representadas. Por isso acho que o GORDA está repercutindo tão bem. Não sei qual a melhor forma de lutar pra mudar isso, mas a minha forma é produzindo conteúdo para tentar promover alguma representatividade e empoderar o maior número de pessoas possível.”

A gordofobia é socialmente naturalizada de tal forma que, em muitos dos casos, as próprias vítimas fazem do seu corpo um alvo de desprezo. Somente a partir de um esclarecimento individual é que elas finalmente se amarão e conseguirão espalhar o conhecimento adiante para combater o preconceito. Colocar a gordofobia como pauta de uma forma única e pessoal como acontece em “GORDA” é uma maneira de sensibilizar quem assiste. Por isso, o filme conversa não só com as mulheres gordas, como também com quem promove os discursos de ódio que afetam essas mulheres.

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Você gostou do tema do documentário? Acha que gera um debate interessante? Pode ser gorda, magra, entendida do tema ou não,  que tal assistir o documentário com a gente e com a Luiza Junqueira no Espaço Criativo GWS? Vamos ter uma sessão de GORDA + debate sobre a autoestima da mulher gorda no dia 29/11, terça-feira, às 19h. As vagas são limitadas! Para se inscrever: bit.ly/GWSgorda

Luiza te inspirou? Segue ela no insta: @luizajunquerida!

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O que aprendi sobre autoestima e por que toda garota tem algo incrível para mostrar pro mundo

Por Nuta Vasconcellos / nuta@gwsmag.com

Desde sempre, o conteúdo do GWS foi voltado para autoestima. Eu acredito que isso aconteceu naturalmente e se tornou o tema principal do site por uma questão totalmente egoísta. Eu percebi, ao longo da vida, como eu deixei de aproveitar oportunidades pessoais e profissionais porque eu não confiava em mim o suficiente. Não me sentia inteligente o suficiente, bonita o suficiente.

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(Fotos por Léo Mello da Camisa Preta Filmes)

Percebi que eu deixei passar  pessoas e oportunidades porque eu não tinha autoestima. Eu não acreditava em mim mesma. Eu acredito, que desde muito nova, somos ensinadas a não nos sentirmos boas o suficiente. Claro, não é uma coisa assim, escancarada, mas aquela mensagem quase que subliminar. Sempre temos que melhorar, nos ajustar, agradar, se enquadrar. É uma forma discreta de nos diminuir em todos os sentidos. Eu tive a autoestima muito baixa ao longo da minha infância, adolescência e inicio da vida adulta. Já contei essa história por aqui algumas vezes. Desde muito cedo, senti em casa a pressão de ter que ser bonita e ser muito mais cobrada que meu irmão para, além de ser linda, ser organizada, boa dona de casa e aluna exemplar. Tudo isso, protegida por uma redoma em que eu não podia sair sozinha porque era perigoso, não podia sentar de perna aberta porque eu era mocinha e era extremamente importante com quem eu perderia a minha virgindade. Enquanto isso, eu observei meu irmão se descobrir, explorar. Ele podia deixar a cama desarrumada, chegar tarde, comer um pote de sorvete. Ele podia experimentar, tentar, errar, acertar, cair de bicicleta, ganhar um corte gigante nas costas depois que o bico da prancha bateu nele enquanto tava no mar. No mar, eu tinha que ficar sempre na beirinha.

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A cobrança de ser tudo tão cedo, muito antes de saber quem você é, é um tiro na autoestima. Não, eu não culpo minha mãe. Esse é o conceito de criar meninos e meninas que tem passado de geração para geração há anos. Inclusive ela também foi criada assim. Aliás, bem pior do que eu, já que as filhas tinham que ficar em casa enquanto meu avô levava os filhos ao clube. E se você está se perguntando porque estou falando da minha mãe e não do meu pai, nenhuma novidade aqui também. Ele não teve influência nenhuma na nossa criação, então sim, eu também tive que lidar com a rejeição logo cedo. Mais uma quebradinha ali na autoestima.

Eu cresci e aos poucos fui colando a minha autoestima como quem cola uma xícara. Bom, aqui temos a notícia ruim… Depois de passar metade da minha vida não me sentindo boa o suficiente eu não sinto que construí uma autoestima e sim que colei todos os pedacinhos e entendi a importância dela para seguir em frente, pra tocar projetos, para me expressar, para ser quem eu acredito. Levei tempos pra entender o que Noel Gallagher queria me dizer quando falava: “When you’re happy and you’re feeling fine, then you’ll know it’s the right time”. Mas eu entendi. E assim que eu entendi, eu mudei. Mudei minha postura na vida e quando sinto medo, vou com medo mesmo. Eu falo tanto sobre isso justamente porque sei que é uma luta diária. Tento passar para garotas o que eu mesma tenho que lutar pra ter. Eu já disse isso aqui também. Autoestima é exercício, igual academia ou matemática. Tem que praticar e tem dia que não vai rolar. Mas tem que levantar a cabeça, focar nos pontos positivos e sempre lembrar: Toda garota tem algo incrível para mostrar pro mundo. Essa frase que hoje estampa nossos cadernos, patches e adesivos não é uma frase vazia, que veio do nada. Foi uma coisa que pensei, escrevi sobre e observei. Observei principalmente através dos comentários nos meus textos e e-mails que recebi de vocês ao longo desses anos falando sobre autoestima por aqui.

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(Foto: Lucas Landau)

O que percebi? Que muitas garotas se sentem inferiores, inseguras dos seus talentos, de quem são. Observei como nossa autoestima é massacrada e que temos que nos lembrar o tempo todo que somos suficientes sim, que temos que nos jogar no mundo, conquistar nosso espaço. Ela é para lembrar você, sua amiga, sua mãe e todas as mulheres do mundo que todas somos especiais, únicas e talentosas.

Antes de qualquer habilidade, diploma ou oportunidade, a autoestima é a chave para uma vida feliz, bem sucedida, realizada e saudável. Precisamos aplicar nossa visão em relação a nós mesmas. Essa frase é um movimento, um mantra, um apelo. E queremos espalhar essa mensagem pelo mundo. “Toda garota tem algo incrível para mostrar pro mundo” não é só uma frase para estampar cadernos. É uma forma de fazer você que está lendo isso neste momento entender que você tem valor. Você importa e você é única. Ninguém mais tem o que você tem.

A gente sabe que não é fácil se encontrar. Se descobrir, entender quem você é, seus sonhos, seus desejos. Ao longo desse caminho, muita gente e muita coisa vai acontecer tentando diminuir sua autoestima, tentando tirar seu valor. Não, não é fácil se descobrir. Depois desse processo, se amar incondicionalmente é um desafio ainda maior. Mas não desista de você. Autoestima é um exercício e deve ser praticado diariamente até você dominar. Se ame! Agora vai lá, se joga e corre atrás dos seus sonhos.

— ♥ —

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Bia Gremion, a modelo plus size que fez história na SPFW

Por Nuta Vasconcellos / nuta@gwsmag.com

04/10/2016. São Paulo, SP. Retrato de Bia Gremion para o GWS. Foto: Carolina Vianna. (Todos os direitos reservados / reprodução proibida sem autorização do autor) – 04/10/2016. São Paulo, SP. Retrato de Bia Gremion para o GWS. Foto: Carolina Vianna. (Todos os direitos reservados / reprodução proibida sem autorização do autor) –

 

Bia Germion desfilou na última SPFW na passarela da marca LAB, também conhecida como a marca do rapper Emicida. Essa temporada foi um sopro de frescor e algo bem mais perto do que queremos ver nas passarelas do mundo em tempos de representatividade, empoderamento e consciência de consumo. Sem dúvidas, uma temporada histórica da São Paulo Fashion Week.

Na LAB teve plus size, negros e a quebra do padrão “para meninas”, “para meninos”. Com o tema “I Love Quebrada”, o desfile sacudiu a internet que elogiou, compartilhou e claro, gerou polêmica. Naquele dia, posso dizer com certeza, que a foto da Bia desfilando com um blusão preto, boné, tênis e meia foi a que mais vi na minha timeline. Muita gente amou e celebrou ver finalmente uma gorda poderosa na passarela, mas claro, críticas e o argumento da “apologia a obesidade” não faltou. O que eu quis mesmo foi saber mais sobre a Bia e fui atrás para conseguir uma entrevista e ouvir da própria, o que ela acha sobre tudo isso. As fotos exclusivas do GWS, são da Carolina Vianna.

04/10/2016. São Paulo, SP. Retrato de Bia Gremion para o GWS. Foto: Carolina Vianna. (Todos os direitos reservados / reprodução proibida sem autorização do autor)

Antes que você pergunte o que Bia faz da vida, ela é modelo mesmo e para o desfile da LAB ela participou de um casting normal, como toda modelo faz. Ela tem 19 anos e no momento se dedica full time à profissão. Uma das maiores motivações? Mostrar para outras mulheres gordas que existem mulheres como elas na mídia, na TV, trabalhando, sendo independente, tendo um relacionamento e se amando pra car#lh%.

Mas se você tá aí em casa, lendo isso tendo certeza que nunca vai se sentir assim, saiba que a Bia também não se sentia:

“Faz 2 anos que eu deixei a papelada da minha cirurgia bariátrica de lado. E toda uma vida de maluquice com o padrão de beleza. Essa cobrança existe para todas as mulheres, mas para mulheres gordas é algo bem pesado. Faz pouco tempo que eu me empoderei, mas mudou minha vida completamente.”

A gente bem sabe que se empoderar para mulheres gordas tem uma importância ainda maior. Deixar de lado as cobranças da sociedade, da família, dos amigos, é finalmente ser livre? 

“É se libertar de uma vida de tristeza. Você sofre cobrança, bullying, vive a vida fazendo dieta. E a pior coisa: Você nunca está satisfeita com você mesma. A pior coisa que tem é você não se aceitar na frente do espelho. É muito doloroso, ainda mais para meninas mais novas, muito triste essa situação. Quero que elas sejam felizes e se amem como elas são.”

Você já se tornou inspiração para muitas garotas, mas quem inspira a Bia?

“Tess Holliday, modelo americana. Ela foi minha primeira referência de modelo gorda, que acho linda demais. E quando eu a vi, eu entrei em choque porque finalmente me vi. O corpo dela parece com o meu e eu sou uma pessoa grande, maior, assim como ela. Ela me ajudou muito na minha jornada de autoestima.”

04/10/2016. São Paulo, SP. Retrato de Bia Gremion para o GWS. Foto: Carolina Vianna. (Todos os direitos reservados / reprodução proibida sem autorização do autor)

Nós sabemos que o movimento gordo ganhou uma força gigantesca no ano de 2016. Claro que o movimento é legítimo. Com isso, estamos vendo cada vez mais mulheres plus size na mídia, nos comerciais, nas páginas das revistas. Mas será que esse momento pra mídia é passageiro? Uma tendência passageira? Você se preocupa com isso? 

“Se for uma tendência, espero que seja copiado por outras marcas, outras marcas que desfilam ou não no SPFW. É uma coisa muito básica. São só roupas, moda e pessoas gordas consomem isso! Não é pra chamar atenção. É simplesmente enxergar o óbvio. Eu gosto de roupa, eu gosto de moda, gosto do que a moda representa. Nada mais justo do que ela conversar comigo também. Se for uma tendência que seja, mas nós sempre estivemos aqui e não vamos a lugar algum.”

Conversando com a Bia é possível perceber que ela tem uma missão. Fazer parte de uma revolução é o que move cada passo dela:

“Eu estava lá, desfilando no SPFW e recebi olhares estranhos dos fotógrafos que estavam ali trabalhando. Um ano atrás, você não via gorda no backstage de um evento desse. Nos corredores, pouquíssimas. Quero quebrar preconceitos e inverdades sobre ser gorda. Fazer parte da mudança da cultura excludente de pessoas gordas que vivemos.”

04/10/2016. São Paulo, SP. Retrato de Bia Gremion para o GWS. Foto: Carolina Vianna. (Todos os direitos reservados / reprodução proibida sem autorização do autor)

Uma reclamação que sempre vejo por aí das garotas gordas é que as marcas feitas para as gordas, não pensam  em todas as gordas, já que geralmente vestem mulheres entre 44 até 54. Eu pessoalmente, sempre me perguntei se era uma forma de excluir mulheres maiores, ou apenas uma problemática financeira, de confecção da peça. O que você acha?

“Olha, acho que existe muito preconceito. Eu visto 60 e é bem difícil. Recentemente, perdi 4 trampos porque as marcas só iam até o 54. É muito bom que esse movimento tenha começado e vejo o esforço das marcas, até fast fashion como a Marisa você encontra tamanho 54, mas ainda não cabem em todas as mulheres, não abraçam todas as mulheres. Acho que falta boa vontade de desenvolver a sua modelagem e aumentar sua grade.”

Outro assunto que é impossível não levantar quando assunto é mulher gorda é a tal da discussão da saúde. O que você tem a dizer sobre isso?

“As pessoas acham que podem te dar um diagnóstico somente olhando para você e associando gordura com má alimentação, com falta de saúde. O que não é verdade. Nem todas as pessoas gordas são doentes, assim como nem todas as pessoas magras, só por terem um corpo magro, são saudáveis.” 

04/10/2016. São Paulo, SP. Retrato de Bia Gremion para o GWS. Foto: Carolina Vianna. (Todos os direitos reservados / reprodução proibida sem autorização do autor)

O GWS acredita que toda garota tem algo incrível para mostrar pro mundo. O que você quer mostrar pro mundo?

“Que gordas são lindas! Que elas podem ocupar espaço, elas não precisam pedir desculpa. Que vai ter roupa pra gente sim, que nós temos valor, que somos bonitas. Que somos fortes e que podemos nos empoderar, que não somos doentes, que não tem nada de errado com a gente, com nosso corpo. Espero levar essa positividade, as coisas que eu acredito, para as meninas que me vêem como referência.”

E nós por aqui, torcemos por mais Bias dominando as passarelas e revistas de moda. A mulher gorda existe, quer e precisa ser representada. A Bia te inspirou? Segue ela no instagram:@biagremion

— ♥ —

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O que um corte de cabelo pixie pode fazer por você

Por Girls With Style / gws@gwsmag.com

pixie hair

Eu era dessas que chegava no salão munida de várias referências – seja recorte de revista, print no celular ou pastinha no Pinterest – e com muita expectativa. Sempre esperava sair de lá me sentindo outra Mariana – e nunca funcionou. Em parte porque um processo de transformação pessoal não é simples assim. Depois que entendi isso, a única coisa que eu queria mesmo era um corte prático. Os outros, você seguiria admirando pelo Instagram. E foi nessa que eu senti meus olhos brilharem de novo – mesmo sem querer acreditar. Primeiro a gente começa juntando referência do que poderia realmente ficar bom na gente, depois sai jogando um verde com os mais chegados pra ver se colhe maduro. Pensa, pondera, decide, desiste, decide de novo, liga e marca um horário – antes que desista mais uma vez. E foi! Sem muito planejar, com referências que não casavam entre si, sem muita ideia do que eu queria, mas sabendo exatamente o que eu não queria, eu fiz o famoso pixie, conhecido por aqui também como “joãozinho”, uma forma sutil de dizer para mulheres que você está investido em um corte considerado masculino.

Tudo que eu escrevi até agora, foi pra chegar aqui. É aqui que realmente começa o sentido deste texto. É uma reflexão (ainda pequena) do impacto de um corte de cabelo quando ele foge do convencional, do que se espera de um mulher.

Primeiro, antes que você perceba como isso pode afetar você, é visível o impacto nos outros. As pessoas em geral não entendem e querem saber por quê; “afinal, é uma mudança muito drástica!”, disseram. Teve quem perguntou se era promessa e quem também agradeceu por não ser “uma dessas doenças que faz cair o cabelo”. Gente que perguntou se eu era doida, ou se estava passando por algum momento difícil. Uma hora você se acostuma e responde quase no automático que não tá doente, não era promessa, que cortou porque tinha curiosidade, que gostou bastante do resultado. É muito difícil para a maioria das pessoas, entenderem que sim: Ter um corte pixie é uma escolha feliz, saudável e resultado de muita resolução com a sua autoestima, não ao contrário.

E aí você vivencia o dia a dia. E nem tudo é foto de Instagram. Acordar parecendo uma catatua é de lei; tem dia que ele não abaixa, ou que não desamassa; e que fazer um rabo era mais fácil; tem dia que você se olha no espelho de camiseta e calça de pijama e se acha sim, a cara do seu irmão sem barba.

Mas é sim libertador. Você se testa e reflete sobre padrões, sobre cultura e empoderamento; dias que você nem acredita que cortou, mas agradece mentalmente ao seu cabeleireiro por não ter te dado tempo de pensar duas vezes. E nesses dias você consegue ver o que o tal do Joãozinho pode fazer por você.

Você passa a reparar no que antes não fazia diferença, como o formato da sua cabeça. Eu já me peguei em frente ao espelho, enquanto secava o cabelo, observando o que antes eu nunca tinha dado bola, mas agora eu conheço exatamente como é. Um corte de cabelo pode te dar a chance de se conhecer mais por dentro e por fora. Ou em como naquela partezinha ali ele vira de uma forma diferente, ele tem um redemoinho…

Sem meus quase 50 cm de cabelo para jogar para um lado e para o outro, eu tive que pensar em outra forma de me sentir feminina e sensual porque não ensinam isso pra gente. Ensinam a sermos dependentes do cabelão. Eu sempre me ancorei no cabelão (e nas suas infinitas jogadas) para completar o sorriso, para fazer charme, para me sentir mais feminina e até mais menininha, quando queria. Eu tive que começar a prestar atenção em mim. Em meio a tantas coisas no dia a dia, eu tive que me forçar a prestar atenção em mim para descobrir o que sempre esteve ali, mas eu nunca tinha dado importância. E aí você percebe mãos, gestos, novas formas de sorrir e quando usar cada uma delas. Valoriza também sua postura e a forma de andar. E sem tanto cabelo na cara, aguça mais o olhar.

A gente cresce com esse complexo de Sansão, achando que nossa força, nossa chance de ser notada pelos potenciais parceiros sexuais e amorosos e a nossa beleza estão condicionados ao fato de ter um cabelo longo, sedoso, brilhante e com leves ondas. Mas tem um mundo aí de variedades que precisa de visibilidade e de estímulo. E as mulheres não são incentivadas a refletir sobre isso. Outra coisa que o meu Joãozinho me deu foi essa vontade de parar um pouquinho e me perguntar “por que?”. Por que as pessoas estranham? Por que a gente existe tanto receio? Por que esse estereótipo besta da “maria sapatão”? A gente vai refletindo sobre uma coisinha aqui, outra ali… E quando vê, já refletiu um bocado sobre como a mulher é vista, tratada e o que se espera dela nessa sociedade.

Não é que você tem que cortar, ou tem que deixar natural, ou tem que deixar crescer… Ter, a gente não tem que nada! Mas se dar a chance, se permitir e tentar, pode levar a gente muito além do que a gente imagina.

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