Uma reflexão sobre o passado, o presente e o futuro da realidade da mulher na sociedade.

Por Nuta Vasconcellos / nuta@gwsmag.com

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The Future is female

Hoje é dia internacional da mulher. Pessoalmente, sempre achei importante falar sobre hoje e a data nunca passa batida aqui no GWS. Já teve post por aqui explicando porque a gente não precisa de flores e sim de respeito e ano passado, falei sobre a importância de valorizar o trabalho feito por mulheres com o movimento #IndiqueMulheres que felizmente, acabou inspirando até página no facebook. Fora do GWS, eu também escrevi sobre o tema, quando era colaboradora da Honey Pie, no post Dia internacional da mulher: O que isso realmente significa? 

Sim, o dia de hoje já foi tema diversas vezes e hoje, será mais uma vez. Eu estava pensando sobre tudo que nós mulheres já passamos e o que realmente mudou. Triste é perceber que pode até parecer que foi muita coisa, mas na real, nem foi. Tem muita coisa que funciona exatamente como no tempo da sua avó e só está mascarada. Eu listei 3 coisas da nossa realidade que analisando passado e o presente, nem são tão diferentes assim. Bora tentar fazer um futuro melhor?

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Next stop: ♀

1. Mulheres e o trabalho

Renderia um post inteiro, ou até mesmo dois, falar sobre a realidade de trabalho da mulher, mas vamos tentar resumir. Antes de realmente abrir o tópico, queria fazer um desabafo sobre as pessoas que insistem em dizer que hoje em dia, mulheres e homens estão no mesmo patamar quando o assunto é mercado de trabalho. Por favor, se informem mais. Na verdade, observem mais.

Hoje em dia podemos trabalhar? Podemos! Todas as mulheres do mundo? Não. Em alguns países as mulheres ainda não podem trabalhar e em várias profissões, mesmo que de forma velada, nós não somos bem-vindas (ou mais triste ainda, bem vistas). Estamos em todas as carreiras possíveis? Estamos… Mas em que número? É proporcional aos homens na mesma carreira? Você sabe que a resposta é não. O problema é claro, começa na educação. Somente em 1827, surgiu a primeira lei sobre educação das mulheres, permitindo que freqüentássemos as escolas elementares, as instituições de ensino mais adiantado ainda eram proibidas. Mulheres brancas, claro. As negras, nem isso podiam. E somente em 1879  nós começamos a poder frequentar ensino superior. Mas as mulheres que assim escolhiam, não eram bem vistas.

Só nos anos 40 algumas poucas, pouquíssimas mulheres começaram a trabalhar e no Brasil, só em 1962 (MIL NOVECENTOS E SESSENTA E DOIS), foi criado o estatuto da Mulher casada, que garantiu entre outras coisas que a mulher não precisava mais de autorização do marido para trabalhar. Para você ter ideia de quanto isso é recente, uma pessoa que nasceu em 1962, hoje tem somente 55 anos. Como isso reflete no nosso presente? Vou explicar de forma simples: Vamos supor que a sua amiga começou a pegar pesado na academia. Ela malha todo dia, está cada vez mais preocupada e informada sobre nutrição e o resultado já é visível no corpo dela. Você, nunca malhou e nem nunca se informou sobre nutrição, mas depois de ver os resultados da sua amiga, um ano depois que ela começou, você se empolga também. Quanto tempo você vai levar pra ter o conhecimento, a disposição, o corpo e para pegar o mesmo peso que ela?  Vai demorar. Se você não tiver tempo, acesso ao conhecimento e oportunidades como ela, talvez, nunca.

O mercado de trabalho para homens e mulheres, explicado toscamente é mais ou menos assim. Eles tiveram acesso a educação primeiro, ao mercado de trabalho primeiro e ganharam notoriedade primeiro por puro privilégio e nós sentimos essas consequências até hoje. Segundo dados do IBGE de 2000, a PEA (População Economicamente Ativa) brasileira, em 2001, tinha uma média de escolaridade de 6,1 anos, sendo que a escolaridade média das mulheres era de 7,3 anos e a dos homens de 6,3 anos. Independente do gênero, a pessoa com maior nível de escolaridade têm mais chances e oportunidades de inclusão no mercado de trabalho. Mas se mais homens tem acesso, menos mulheres estão no mercado. Hoje, em 2017, existe uma significativa melhora entre as diferenças salariais quando comparadas ao sexo masculino. Mas ainda não foram superadas as dificuldades encontradas pelas trabalhadoras no acesso a cargos de chefia e de equiparação salarial com homens que ocupam os mesmos cargos.

E o que as mulheres fazem? 80% delas são professoras, cabeleireiras, manicures, funcionárias públicas ou trabalham em serviços de saúde. Mas a maioria de mulheres trabalhadoras estão no serviço doméstico remunerado. Na maioria, mulheres negras, com baixo nível de escolaridade e com os menores rendimentos na sociedade brasileira.

O que eu quero dizer com isso? Nossa realidade de trabalho, não a sua, ou a minha pessoalmente, a realidade de NÓS, MULHERES ainda está longe de ser a ideal. Outro grande problema que a mulher enfrenta é que nós ganhamos o “aval” para trabalhar, mas a maioria de nós ainda é 100% responsável pelo lar e filhos. Os homens precisam entender a importância de também serem responsáveis por isso. Falamos um pouco disso no vídeo com a Marília Lamas. Pra entender um pouco mais sobre essa diferença enorme entre mulheres e homens quando o assunto é horas de trabalho em casa e fora de casa, vale ler essa matéria da FOLHA. E para entender um pouco mais sobre como é difícil crescer na carreira sendo mãe, leia essa da revista Crescer.

O que podemos fazer para mudar nosso futuro? Contrate mulheres, estimule suas amigas a estudarem, se formarem, divulgue o trabalho de mulheres. Ajude a divulgar a ideia que a mulher pode ser o que ela quiser. Presidente, engenheira, publicitária, advogada. Se você tem um cargo de relevância, fale por nós, lute por nós. Esses dados não são uma crítica às mulheres que ESCOLHEM ser donas de casa. É um alerta para entender que nem sempre é uma escolha, às vezes é porque ela não vê outra saída e nós temos o direito de sermos realizadas em todos os campos. Sendo escolha dela ou não cuidar da casa, nunca, deve ser uma tarefa exclusiva dela. Ajude a criar e a conscientizar homens que saibam cuidar de casa e que sejam independentes e que não julguem a capacidade corporativa de uma mulher, pela maternidade.

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Ovaries before brovaries

2. A obrigação de ser linda

Eu realmente acredito que esse é um dos problemas mais graves para a realidade da mulher. No passado, no presente e infelizmente, no futuro.  Já quero começar esse post dizendo que você pode e deve ter a liberdade de emagrecer, engordar, malhar, não malhar, fazer tratamento estético, não fazer, depilar… Mas todas essas questões devem ser ESCOLHAS. E por mais que pareçam que são, a maioria delas não é.

Nós sofremos uma pressão estética absurda e mais uma vez, cito um post muito importante que já rolou aqui no GWS: É sobre depilação mesmo que estamos falando? O problemático na questão da beleza da mulher é o TEM QUE SER. Nessa obrigação de ser linda, nós acabamos caindo em tantas armadilhas que não percebemos… Essa obrigação de ser linda que sentimos todas as vezes que vemos uma atriz, uma capa de revista ou ouvimos da nossa mãe que temos que fazer as unhas, é um soco na nossa autoestima. Mulheres sem autoestima correm menos atrás do que querem, acreditam que não estão prontas para realizarem seus sonhos ou até para fazerem coisas simples, como irem a praia. Uma mulher que é cobrada pela sociedade para ser linda e acha que não corresponde, é uma mulher infeliz. Eu falei sobre isso nesse post aqui.

Em 1952, o mundo viu nascer o Miss Universo. Um concurso aonde mulheres competem para se tornarem: A mulher mais bonita do mundo. Em 1971, existia um concurso em Portugal chamado “A mulher ideal” que além de ser linda, tinha que saber cozinhar e costurar. Os concursos mais importantes e valorizados desde então quando o assunto é mulher são os concursos de beleza e se apresentam das mais diversas formas. Além do próprio miss universo que existe até hoje, temos os concursos de modelos, para várias classes sociais, como a Garota da Laje. A cobrança da beleza está enraizada na nossa cultura.

Isso me faz lembrar uma citação de Naomi Wolf: “Uma cultura focada na magreza feminina não revela uma obsessão com a beleza feminina. É uma obsessão sobre a obediência feminina. Fazer dietas é o sedativo político mais potente na história das mulheres; uma população passivamente insana pode ser controlada”.  E isso faz muito, muito sentido. Não só em relação a magreza, mas na beleza em geral.

Você pode ser o que quiser. Por dentro e por fora. Mas vamos tentar fazer nosso futuro diferente? Não vamos mais nos permitir adoecer em nome da beleza, deixar de correr atrás do que acreditamos porque não nos achamos merecedoras, nem depilar ou não depilar porque alguém te disse o que é esteticamente certo. Vamos lutar pela liberdade REAL da nossa imagem.

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You own your body

3. Sexualidade

A repressão sexual da mulher existe desde que o mundo é mundo. Às vezes disfarçada de histórias santas, outras como “opinião” e muitas vezes, muitas, muitas como regras escancaradas. A repressão é tão grande, que não prejudica só a saúde sexual das mulheres, mas a forma que vivemos em sociedade, nossa estrutura familiar e claro, nossa autoestima.

Na história bíblica do começo do mundo, foi Eva, uma mulher que por conta de seus desejos carnais, tirou toda a humanidade do paraíso. Ou seja, se ela tivesse ficado lá, na dela, rezando, nada de ruim do mundo teria acontecido. Adão é completamente isento de qualquer responsabilidade. Ele foi uma vítima de uma mulher que estava pedindo. Ainda na bíblia, temos virgem Maria, que antes de ser conhecida por seu nome é conhecida como virgem. Mesmo sendo casada, mesmo Jesus tendo irmãos. Aliás mesmo a história dessa mulher sendo fantástica, nada parece ser mais importante do que ela ser casta.

Para ser classificada como puta, era fácil. Nos anos 20, mulher que dirigia, era puta. Nos anos 30, as que queriam ser atrizes? Também. Nos anos 60, mãe solteira era puta. Mas pensando bem, hoje em dia, também é fácil ser puta, né? Tá de short curto na rua: Calor? Moda? Se sente linda assim? Não, não. É puta. Postou selfie sensual? Vixiii, putíssima.

Ao longo da nossa história sempre ficou muito claro que a mulher para sociedade só pode ser duas coisas: Santa ou puta. Pra casar ou pra comer. Ignoraram completamente que somos seres sexuais, com vontades e desejos próprios, exatamente como os homens. O que é mais grave nisso tudo? Se somos mulheres e para a nossa sociedade só podemos ser duas coisas, estamos vulneráveis a todo tipo de violência. Foi estuprada? Tava pedindo. Engravidou? Quem mandou transar…. teve vídeo vazado na internet? Foi fazer vídeo pra que né, puta?

Assim como lááá no tempo de Adão e Eva, o homem é isentado de qualquer classificação.

Ser santa também não é fácil. A mulher que se sente cobrada a ter um certo comportamento, seja por uma criação rígida ou por um marido que ameaça até matar por causa do tamanho do seu decote, é uma mulher que vive reprimida e com medo. Não somos putas nem santas. Somos indivíduos com história, com momentos, com desejos.

Mas como mudar o nosso futuro?  Abrace a mulher que você é e se livre de rótulos e livre as outras mulheres também. Eduque os homens a sua volta. Seu pai, seus filhos, seus amigos. Parece óbvio, mas pra muito homem ainda não caiu a ficha da gravidade dessa prisão sexual da mulher.

Eu escolhi 3 temas, mas a lista poderia crescer infinitamente… Somos mulheres. Filhas, netas das mulheres do passado. Somos o presente. E precisamos criar mulheres fortes, precisamos ser fortes e fazer um futuro diferente. Somos muitas, somos sobreviventes, somos guerreiras. Não deixe nada, nem ninguém, fazer com que você se sinta diferente disso.

Feliz dia das mulheres.

 

As fotos são exclusivas do GWS e foram feitas pela Sthefany de Barros, instagram: @stefanybs

Styling e make: Bella Castro, instagram: @bellarlcastro

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Documentário GORDA, de Luiza Junqueira do ‘Tá Querida’

Por Nuta Vasconcellos / nuta@gwsmag.com

Se você ainda não conhece a Luiza Junqueira, pode ir se inscrevendo no canal dela o “Tá Querida“. Lá a Luiza faz os vídeos clássicos que você espera de uma youtuber, com dicas, um pouco sobre a vida pessoal, ’50 fatos sobre mim’ e temas importantes como masturbação feminina e gordofobia. O equilíbrio perfeito entre as futilidades que a gente ama e papo sério que podemos e devemos debater.

luiza junqueira Luiza Junqueira do canal ” Tá Querida” e diretora do documentário “GORDA”

Além de youtuber, Luiza é videomaker e juntando o útil ao agradável ela fez em 2013 o belíssimo e poético curta chamado “Espelho Torcido” (te desafio a assistir sem se emocionar). E agora, em 2016, lança hoje no seu canal do youtube o documentário “GORDA”, que ela mesma produziu, dirigiu, roteirizou, editou e fez a coloração, junto com Aline Rosa. Todo o resto, ela teve ajuda de uma equipe composta apenas por mulheres, 15 ao total, que doaram seu trabalho para o projeto.

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O Espelho torcido foi em 2013 minha tentativa de tentar iniciar meu processo de empoderamento. Na época o filme teve bastante repercussão e a partir disso comecei a aceitar melhor meu próprio corpo.” – conta Luiza.

Daí para o GORDA, foi um pulo: “Quando fui fazer meu TCC no curso de Rádio e TV decidi que faria um filme que proporcionasse a mesma experiência que tive a outras mulheres. E daí surgiu a ideia de fazer o GORDA.”

A intenção com seus trabalhos é dar voz  às mulheres gordas que, assim como ela, enfrentam preconceito diariamente: “Quero que as pessoas entendam que ser gorda é normal e pode ser belo. Quero mostrar que padrão de beleza é uma construção social e por isso pode ser ressignificado. A beleza é uma decisão pessoal.”

O documentário é sobre 3 mulheres gordas, todas com perspectivas diferentes em relação aos próprios corpos. Como essas mulheres foram escolhidas? “São mulheres que foram selecionadas em um formulário online com algumas perguntas acerca do tema do filme. O formulário teve mais de 550 inscrições em apenas uma semana no ar. Como a produção foi pequena, foram escolhidas apenas três mulheres que têm perspectivas diferentes em relação aos próprios corpos.”

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Sabemos que a autoestima das mulheres em geral é baixa e massacrada pela sociedade. Mas sabemos também que as mulheres gordas sofrem ainda mais com isso, a pressão é infinitamente maior. Vivemos em um tempo que a representatividade nunca esteve tão em alta. Mas a mulher gorda ainda assim é raramente vista na TV, em campanhas… Qual a melhor forma de lutar pra isso mudar?

“Acho que ainda não há representatividade gorda pois o capitalismo (sim terei que falar de capitalismo) cria necessidades impossíveis de serem supridas para gerar mais consumo. Então é colocado um corpo magro e quase impossível de se ter como padrão de sucesso e beleza. Quanto mais longe a pessoa estiver daquele corpo, mais indesejável e fracassada ela é. As pessoas continuam em uma busca infinita por um corpo perfeito e consomem produtos de dieta, programas de tv, revistas, cirurgias plásticas, roupas modeladoras, cosméticos, maquiagem… deve ser bem lucrativo, sabe? Mas eu acho que já tá na hora dessa galera cair na real que o público não é um robô de photoshop e as pessoas querem consumir sim e querem se ver representadas no que consomem. É uma pena pois eu acredito que seria muito mais lucrativo um consumo mais consciente e feliz que envolva amor próprio. Mas tenho esperanças que estamos caminhando pra isso. Cada vez mais pessoas estão tomando consciência de si e querendo se ver representadas. Por isso acho que o GORDA está repercutindo tão bem. Não sei qual a melhor forma de lutar pra mudar isso, mas a minha forma é produzindo conteúdo para tentar promover alguma representatividade e empoderar o maior número de pessoas possível.”

A gordofobia é socialmente naturalizada de tal forma que, em muitos dos casos, as próprias vítimas fazem do seu corpo um alvo de desprezo. Somente a partir de um esclarecimento individual é que elas finalmente se amarão e conseguirão espalhar o conhecimento adiante para combater o preconceito. Colocar a gordofobia como pauta de uma forma única e pessoal como acontece em “GORDA” é uma maneira de sensibilizar quem assiste. Por isso, o filme conversa não só com as mulheres gordas, como também com quem promove os discursos de ódio que afetam essas mulheres.

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Você gostou do tema do documentário? Acha que gera um debate interessante? Pode ser gorda, magra, entendida do tema ou não,  que tal assistir o documentário com a gente e com a Luiza Junqueira no Espaço Criativo GWS? Vamos ter uma sessão de GORDA + debate sobre a autoestima da mulher gorda no dia 29/11, terça-feira, às 19h. As vagas são limitadas! Para se inscrever: bit.ly/GWSgorda

Luiza te inspirou? Segue ela no insta: @luizajunquerida!

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O que aprendi sobre autoestima e por que toda garota tem algo incrível para mostrar pro mundo

Por Nuta Vasconcellos / nuta@gwsmag.com

Desde sempre, o conteúdo do GWS foi voltado para autoestima. Eu acredito que isso aconteceu naturalmente e se tornou o tema principal do site por uma questão totalmente egoísta. Eu percebi, ao longo da vida, como eu deixei de aproveitar oportunidades pessoais e profissionais porque eu não confiava em mim o suficiente. Não me sentia inteligente o suficiente, bonita o suficiente.

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(Fotos por Léo Mello da Camisa Preta Filmes)

Percebi que eu deixei passar  pessoas e oportunidades porque eu não tinha autoestima. Eu não acreditava em mim mesma. Eu acredito, que desde muito nova, somos ensinadas a não nos sentirmos boas o suficiente. Claro, não é uma coisa assim, escancarada, mas aquela mensagem quase que subliminar. Sempre temos que melhorar, nos ajustar, agradar, se enquadrar. É uma forma discreta de nos diminuir em todos os sentidos. Eu tive a autoestima muito baixa ao longo da minha infância, adolescência e inicio da vida adulta. Já contei essa história por aqui algumas vezes. Desde muito cedo, senti em casa a pressão de ter que ser bonita e ser muito mais cobrada que meu irmão para, além de ser linda, ser organizada, boa dona de casa e aluna exemplar. Tudo isso, protegida por uma redoma em que eu não podia sair sozinha porque era perigoso, não podia sentar de perna aberta porque eu era mocinha e era extremamente importante com quem eu perderia a minha virgindade. Enquanto isso, eu observei meu irmão se descobrir, explorar. Ele podia deixar a cama desarrumada, chegar tarde, comer um pote de sorvete. Ele podia experimentar, tentar, errar, acertar, cair de bicicleta, ganhar um corte gigante nas costas depois que o bico da prancha bateu nele enquanto tava no mar. No mar, eu tinha que ficar sempre na beirinha.

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A cobrança de ser tudo tão cedo, muito antes de saber quem você é, é um tiro na autoestima. Não, eu não culpo minha mãe. Esse é o conceito de criar meninos e meninas que tem passado de geração para geração há anos. Inclusive ela também foi criada assim. Aliás, bem pior do que eu, já que as filhas tinham que ficar em casa enquanto meu avô levava os filhos ao clube. E se você está se perguntando porque estou falando da minha mãe e não do meu pai, nenhuma novidade aqui também. Ele não teve influência nenhuma na nossa criação, então sim, eu também tive que lidar com a rejeição logo cedo. Mais uma quebradinha ali na autoestima.

Eu cresci e aos poucos fui colando a minha autoestima como quem cola uma xícara. Bom, aqui temos a notícia ruim… Depois de passar metade da minha vida não me sentindo boa o suficiente eu não sinto que construí uma autoestima e sim que colei todos os pedacinhos e entendi a importância dela para seguir em frente, pra tocar projetos, para me expressar, para ser quem eu acredito. Levei tempos pra entender o que Noel Gallagher queria me dizer quando falava: “When you’re happy and you’re feeling fine, then you’ll know it’s the right time”. Mas eu entendi. E assim que eu entendi, eu mudei. Mudei minha postura na vida e quando sinto medo, vou com medo mesmo. Eu falo tanto sobre isso justamente porque sei que é uma luta diária. Tento passar para garotas o que eu mesma tenho que lutar pra ter. Eu já disse isso aqui também. Autoestima é exercício, igual academia ou matemática. Tem que praticar e tem dia que não vai rolar. Mas tem que levantar a cabeça, focar nos pontos positivos e sempre lembrar: Toda garota tem algo incrível para mostrar pro mundo. Essa frase que hoje estampa nossos cadernos, patches e adesivos não é uma frase vazia, que veio do nada. Foi uma coisa que pensei, escrevi sobre e observei. Observei principalmente através dos comentários nos meus textos e e-mails que recebi de vocês ao longo desses anos falando sobre autoestima por aqui.

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(Foto: Lucas Landau)

O que percebi? Que muitas garotas se sentem inferiores, inseguras dos seus talentos, de quem são. Observei como nossa autoestima é massacrada e que temos que nos lembrar o tempo todo que somos suficientes sim, que temos que nos jogar no mundo, conquistar nosso espaço. Ela é para lembrar você, sua amiga, sua mãe e todas as mulheres do mundo que todas somos especiais, únicas e talentosas.

Antes de qualquer habilidade, diploma ou oportunidade, a autoestima é a chave para uma vida feliz, bem sucedida, realizada e saudável. Precisamos aplicar nossa visão em relação a nós mesmas. Essa frase é um movimento, um mantra, um apelo. E queremos espalhar essa mensagem pelo mundo. “Toda garota tem algo incrível para mostrar pro mundo” não é só uma frase para estampar cadernos. É uma forma de fazer você que está lendo isso neste momento entender que você tem valor. Você importa e você é única. Ninguém mais tem o que você tem.

A gente sabe que não é fácil se encontrar. Se descobrir, entender quem você é, seus sonhos, seus desejos. Ao longo desse caminho, muita gente e muita coisa vai acontecer tentando diminuir sua autoestima, tentando tirar seu valor. Não, não é fácil se descobrir. Depois desse processo, se amar incondicionalmente é um desafio ainda maior. Mas não desista de você. Autoestima é um exercício e deve ser praticado diariamente até você dominar. Se ame! Agora vai lá, se joga e corre atrás dos seus sonhos.

— ♥ —

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Bia Gremion, a modelo plus size que fez história na SPFW

Por Nuta Vasconcellos / nuta@gwsmag.com

04/10/2016. São Paulo, SP. Retrato de Bia Gremion para o GWS. Foto: Carolina Vianna. (Todos os direitos reservados / reprodução proibida sem autorização do autor) – 04/10/2016. São Paulo, SP. Retrato de Bia Gremion para o GWS. Foto: Carolina Vianna. (Todos os direitos reservados / reprodução proibida sem autorização do autor) –

 

Bia Germion desfilou na última SPFW na passarela da marca LAB, também conhecida como a marca do rapper Emicida. Essa temporada foi um sopro de frescor e algo bem mais perto do que queremos ver nas passarelas do mundo em tempos de representatividade, empoderamento e consciência de consumo. Sem dúvidas, uma temporada histórica da São Paulo Fashion Week.

Na LAB teve plus size, negros e a quebra do padrão “para meninas”, “para meninos”. Com o tema “I Love Quebrada”, o desfile sacudiu a internet que elogiou, compartilhou e claro, gerou polêmica. Naquele dia, posso dizer com certeza, que a foto da Bia desfilando com um blusão preto, boné, tênis e meia foi a que mais vi na minha timeline. Muita gente amou e celebrou ver finalmente uma gorda poderosa na passarela, mas claro, críticas e o argumento da “apologia a obesidade” não faltou. O que eu quis mesmo foi saber mais sobre a Bia e fui atrás para conseguir uma entrevista e ouvir da própria, o que ela acha sobre tudo isso. As fotos exclusivas do GWS, são da Carolina Vianna.

04/10/2016. São Paulo, SP. Retrato de Bia Gremion para o GWS. Foto: Carolina Vianna. (Todos os direitos reservados / reprodução proibida sem autorização do autor)

Antes que você pergunte o que Bia faz da vida, ela é modelo mesmo e para o desfile da LAB ela participou de um casting normal, como toda modelo faz. Ela tem 19 anos e no momento se dedica full time à profissão. Uma das maiores motivações? Mostrar para outras mulheres gordas que existem mulheres como elas na mídia, na TV, trabalhando, sendo independente, tendo um relacionamento e se amando pra car#lh%.

Mas se você tá aí em casa, lendo isso tendo certeza que nunca vai se sentir assim, saiba que a Bia também não se sentia:

“Faz 2 anos que eu deixei a papelada da minha cirurgia bariátrica de lado. E toda uma vida de maluquice com o padrão de beleza. Essa cobrança existe para todas as mulheres, mas para mulheres gordas é algo bem pesado. Faz pouco tempo que eu me empoderei, mas mudou minha vida completamente.”

A gente bem sabe que se empoderar para mulheres gordas tem uma importância ainda maior. Deixar de lado as cobranças da sociedade, da família, dos amigos, é finalmente ser livre? 

“É se libertar de uma vida de tristeza. Você sofre cobrança, bullying, vive a vida fazendo dieta. E a pior coisa: Você nunca está satisfeita com você mesma. A pior coisa que tem é você não se aceitar na frente do espelho. É muito doloroso, ainda mais para meninas mais novas, muito triste essa situação. Quero que elas sejam felizes e se amem como elas são.”

Você já se tornou inspiração para muitas garotas, mas quem inspira a Bia?

“Tess Holliday, modelo americana. Ela foi minha primeira referência de modelo gorda, que acho linda demais. E quando eu a vi, eu entrei em choque porque finalmente me vi. O corpo dela parece com o meu e eu sou uma pessoa grande, maior, assim como ela. Ela me ajudou muito na minha jornada de autoestima.”

04/10/2016. São Paulo, SP. Retrato de Bia Gremion para o GWS. Foto: Carolina Vianna. (Todos os direitos reservados / reprodução proibida sem autorização do autor)

Nós sabemos que o movimento gordo ganhou uma força gigantesca no ano de 2016. Claro que o movimento é legítimo. Com isso, estamos vendo cada vez mais mulheres plus size na mídia, nos comerciais, nas páginas das revistas. Mas será que esse momento pra mídia é passageiro? Uma tendência passageira? Você se preocupa com isso? 

“Se for uma tendência, espero que seja copiado por outras marcas, outras marcas que desfilam ou não no SPFW. É uma coisa muito básica. São só roupas, moda e pessoas gordas consomem isso! Não é pra chamar atenção. É simplesmente enxergar o óbvio. Eu gosto de roupa, eu gosto de moda, gosto do que a moda representa. Nada mais justo do que ela conversar comigo também. Se for uma tendência que seja, mas nós sempre estivemos aqui e não vamos a lugar algum.”

Conversando com a Bia é possível perceber que ela tem uma missão. Fazer parte de uma revolução é o que move cada passo dela:

“Eu estava lá, desfilando no SPFW e recebi olhares estranhos dos fotógrafos que estavam ali trabalhando. Um ano atrás, você não via gorda no backstage de um evento desse. Nos corredores, pouquíssimas. Quero quebrar preconceitos e inverdades sobre ser gorda. Fazer parte da mudança da cultura excludente de pessoas gordas que vivemos.”

04/10/2016. São Paulo, SP. Retrato de Bia Gremion para o GWS. Foto: Carolina Vianna. (Todos os direitos reservados / reprodução proibida sem autorização do autor)

Uma reclamação que sempre vejo por aí das garotas gordas é que as marcas feitas para as gordas, não pensam  em todas as gordas, já que geralmente vestem mulheres entre 44 até 54. Eu pessoalmente, sempre me perguntei se era uma forma de excluir mulheres maiores, ou apenas uma problemática financeira, de confecção da peça. O que você acha?

“Olha, acho que existe muito preconceito. Eu visto 60 e é bem difícil. Recentemente, perdi 4 trampos porque as marcas só iam até o 54. É muito bom que esse movimento tenha começado e vejo o esforço das marcas, até fast fashion como a Marisa você encontra tamanho 54, mas ainda não cabem em todas as mulheres, não abraçam todas as mulheres. Acho que falta boa vontade de desenvolver a sua modelagem e aumentar sua grade.”

Outro assunto que é impossível não levantar quando assunto é mulher gorda é a tal da discussão da saúde. O que você tem a dizer sobre isso?

“As pessoas acham que podem te dar um diagnóstico somente olhando para você e associando gordura com má alimentação, com falta de saúde. O que não é verdade. Nem todas as pessoas gordas são doentes, assim como nem todas as pessoas magras, só por terem um corpo magro, são saudáveis.” 

04/10/2016. São Paulo, SP. Retrato de Bia Gremion para o GWS. Foto: Carolina Vianna. (Todos os direitos reservados / reprodução proibida sem autorização do autor)

O GWS acredita que toda garota tem algo incrível para mostrar pro mundo. O que você quer mostrar pro mundo?

“Que gordas são lindas! Que elas podem ocupar espaço, elas não precisam pedir desculpa. Que vai ter roupa pra gente sim, que nós temos valor, que somos bonitas. Que somos fortes e que podemos nos empoderar, que não somos doentes, que não tem nada de errado com a gente, com nosso corpo. Espero levar essa positividade, as coisas que eu acredito, para as meninas que me vêem como referência.”

E nós por aqui, torcemos por mais Bias dominando as passarelas e revistas de moda. A mulher gorda existe, quer e precisa ser representada. A Bia te inspirou? Segue ela no instagram:@biagremion

— ♥ —

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