Toda garota tem algo incrível para mostrar pro mundo

Por Nuta Vasconcellos / nuta@gwsmag.com

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Ilustração: Isabela Gabriel especialmente para esse post

A base do feminismo é melhorar o relacionamento de mulheres com mulheres. É só parar para pensar na nossa história, para ver como isso é importante. Como diz Chimamanda Ngozi na sua palestra We Should All Be Feminists: “Nós criamos as meninas para ver umas às outras como concorrentes” e isso é algo tão entranhado na gente, que mesmo quando nos assumimos feministas e sabemos da importância da empatia e da sororidade, sem perceber, reproduzimos discursos altamente machistas. E pior do que isso: discursos que limitam a nossa própria existência.

Vejo constantemente mulheres desmerecendo outras mulheres pelas suas escolhas estéticas, sua personalidade ou forma que vivem a vida, ou simplesmente dizendo o que devem ou não fazer para ganhar o respeito delas como “feministas”. Sem perceber, algumas mulheres estão criando regras tão crueis e absurdas como o próprio patriarcado fez. A última que eu li por aí e que foi definitivo para eu escrever esse post, foi que um grupo feminista no facebook resolveu não aceitar mais “feministas de direita” por achar que não existia coerência nisso. Não sei se isso é boato, ou verdade, mas também não vem ao caso. O caso aqui é que eu percebo cada dia mais, que algumas mulheres acreditam que outras devem caber dentro de um padrão, veja só um padrão, para receber o respeito delas.

Pra mim, ser feminista é acreditar na liberdade de SER de todas as mulheres. Foi esse o aprendizado mais importante que o feminismo me deu. Por isso, não consigo entender quando leio por aí, coisas como “Kylie Jenner é uma péssima referência para as adolescentes”. Eu ouvi essa frase de uma mulher, que se considera feminista. E eu perguntei por que ela acreditava nisso e a resposta foi: “Ela é fútil demais”. Sei lá, sou só eu quem achou, ou essa é uma frase extremamente machista? Sabe o que eu acho engraçado? Homens bem sucedidos podem colecionar relógios, carros, gravatas de marca e ainda sim, são considerados referências nos negócios, na família e na sociedade. Mas já reparou que o mesmo não acontece com a mulher? Uma mulher que coleciona carros, ostenta sapatos de marca e adora maquiagem tem menos valor que a mulher discreta, sem luxos. A voz dessa mulher é mais importante. Por quê? Kylie Jenner tem preenchimento labial, bolsas de marca e está constantemente maquiada e vestida de Balmain e ela também é uma jovem empresária, bem sucedida com a sua linha de cosméticos, sua marca de roupas e já usou suas redes sociais para uma campanha muito legal anti-bullying.

O que eu quero dizer com isso? Que precisamos urgentemente parar de achar que devemos caber dentro de um molde para ter respeito e para ser reconhecidas como feministas.

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É impossível lutarmos contra as regras do patriarcado, criando outras regras; olhando feio para mulheres que acreditamos não preencher o que você considera certo. Esse pensamento limitado só prejudica o crescimento de nós mulheres como indivíduos. Quando a gente fala “Ame seu corpo”, não estamos dizendo: “Não mude nada no seu corpo se não você não se ama”. O quanto absurdo seria isso? Na minha opinião isso é tão grave e opressivo como a chamada da revista: “Prepare seu corpo para o biquini”. Não podemos nos limitar, não pode existir um jeito certo de ser uma garota. Queremos ser livres, precisamos ser livres.

Quando falamos em ter autoestima e se amar dizemos que isso deve ser independente do corpo que você está. É entender que tudo são fases e que você pode e deve mudar se quiser, mas esse desejo deve vir de você e deve ser construído através do amor próprio e não odiando seu corpo. Essa mesma ideia serve para ter cabelos compridos ou curtos, usar maquiagem ou não, se depilar ou não, ser contra ou a favor do aborto, de esquerda ou de direita, bela, recatada e do lar ou bela, desbocada e do bar.

Devemos apenas respeitar as escolhas das outras, a realidade da outra, a vivência da outra. E claro, as nossas. E saber que somos livres até para mudar de ideia porque isso, faz parte do nosso processo de evolução como ser humano.

Você nao precisa ser Malala Yousafzai para ser respeitada, para ter voz, para ser considerada feminista. Você pode ser como você quiser. Por dentro e por fora. Como já diz o lema do GWS, acreditamos que toda garota tem algo de incrível para mostrar para o mundo. Apenas respeite e ame seu corpo, sua personalidade e crenças. E exija de você, o mesmo respeito que você quer receber. Assim, vamos construir uma comunidade de mulheres fortes e verdadeiramente donas de si.

— ♥ —

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3 Comentários

  • Bruna

    Só amor nesse texto, Nuta! Estava pensando nisso esses dias, quando escutei um comentário muito semelhante sobre a Kylie. Acho que eu estava mesmo precisando ler algo desse tipo! Acho que esse é um dos passos mais difíceis para as mulheres no feminismo: a sororidade. A gente se empodera, a colega se empodera, mas tá faltando um respeito mútuo uma com a dimensão existencial da outra. Até eu me pego pensando algumas coisas que me deixam envergonhada depois. Falo comigo mesma “Tá desrespeitando o direito da miga de existir. Não adianta lutar pra desconstruir de um lado e oprimir do outro.” Importante se vigiar sempre, acredito eu. Como já li antes, a desconstrução e o empoderamento é um trabalho diário.

  • mariana

    eu to apaixonada por você. se o mundo pensasse dessa maneira seria incrível.

  • Clara Luiza

    Parabéns pelo texto! Muito bom mesmo, muito evoluido.