Transtornos alimentares: Será que todo início vem de uma vontade de ser mais magra?

Por Carol Guido / carol@gwsmag.com

Transtornos alimentares: Será que todo início vem de uma vontade de ser mais magra?

Pode parecer absurdo, mas não consigo pensar em outra forma de começar este post a não ser fazendo uma confissão para vocês: Quando eu era adolescente, achava que era a maior onda ter bulimia. E não, eu não era mentalmente desorientada. Muito pelo contrário. Sempre fui esclarecida (pelo menos me considero assim), bem educada pelos pais, escola e todos os outros canais que tentam nos dizer o que é bom e o que é ruim fazer quando se está descobrindo as coisas da vida.

Mas por alguma razão, ainda assim, eu tive esse desvio de pensamento.

Refletindo um pouco sobre isso, enquanto eu ia formando as minhas ideias para escrever este post, cheguei a uma conclusão. O que mais me influenciou a pensar daquela maneira foi a quantidade enorme de meninas lindas e populares que sofriam deste (e outros) mal. Não digo só na vida real, mas também nos livros, filmes e séries que eu assistia.

Vou tentar explicar melhor. Quando eu era adolescente levava uma vida bem normal. Não era a nerd da sala, mas também não era a mais popular. Não era odiada por ninguém, basicamente transitava em todos os grupinhos. Tirava notas boas em algumas matérias, ficava de recuperação em outras. Sentava no fundão, mas era mais pra dormir do que fazer bagunça. Tinha lá meus momentos bons e ruins na vida, mas em geral tudo era bem de boa. E no fim, o problema era esse. Eu comecei a me sentir uma whatever.

E foi nesse contexto que minha cabeça formou a ideia de que existia algo de cool em ter bulimia. Quem eu sabia que tinha (seja na vida, seja na ficção), não era uma whatever. E posso dizer pra vocês que eu não era a única que chegou a pensar assim no meu círculo de amigas ou conhecidas.

Eu acabei não tendo bulimia, em nenhum estágio. Mas hoje fico pensando no quanto esse coolness pode ser uma força influenciadora para garotas, que como eu nos meus 15 anos, não tinham nenhum problema de auto estima específico e talvez, justamente por isso, acabam caindo nessa.

Se o que eu estou escrevendo aqui tem alguma relevância sobre o assunto e pensando que, para muitas garotas, tudo começa por uma vontade de se destacar, preciso dizer que apesar de não ter tido nada, sim, cheguei a usar essa “vontade” como arma para chamar atenção.

E não adiantou p**** nenhuma, se vocês querem saber. Simplesmente por que aquela atenção em forma de pena era a última coisa que eu queria.

Eu não precisava que me achassem coitada. Na real eu só queria que vissem que eu era uma garota legal. Só que no fim das contas, o transtorno alimentar acaba tirando a atenção de tudo que você é, te resumindo a garota-problema. E garota nenhuma, com ou sem bulimia, simplesmente não pode ser resumida.  Todo mundo deveria saber disso. Principalmente nós mesmas. Não se deixe resumir.

Fora que passar de whatever para garota-problema não mudou em nada minha sensação de vazio. Isso por que eu realmente não tinha nada. Mas e para quem tem? Fico imaginando o quanto ao invés de melhorar, só piora as coisas.

Eu não sou especialista no assunto, estou assumindo que falo como leiga do ponto de vista científico da coisa, mas não vejo muitos programas de esclarecimento que ataquem essa frente de início da doença, sabe? Alguma campanha que seja focada em falar para as meninas: “você não é uma whatever e ser bulímica não é cool, sai dessa.”

Por isso, se eu pudesse, entraria na mente de cada garota que também se sente assim e falaria que o mais importante é entender que ninguém é uma whatever. Pode parecer papo motivacional, mas cá entre nós, existem muitas maneiras de mostrar pra você e para o mundo o quanto você é interessante. Formas que não façam de você um resumo.

E também que simplesmente não deveria existir grau de normalidade ou tédio com a própria vida que te leve a uma atitude que faz tão mal pra sua saúde, que você pode morrer e que pode destruir sua sanidade mental. Isso tudo pode parece muito distante das garotas que se sentem motivadas pela ideia da bacaneza da coisa, mas é ingenuidade não pensar que é isso que pode acontecer com quem se afunda num transtorno alimentar.

E por último, se tem alguém aqui que se sente assim, digo logo: se você é leitora do GWS, você não é uma whatever. Não, sério. Por mais que você não saiba, você deve ser sim meio doidinha só pelo fato de estar aqui. Então chega de se sentir um tédio e bem vinda ao clube #EuSouAssim, powered by #GWSpower! haha A gente realmente acredita no potencial de uma suposta garota whatever. Se não, eu não estaria aqui. <3

beijos, C.

Queria muito saber a opinião de vocês sobre isso tudo, então sintam-se livres para comentar!

*Post originalmente publicado em julho de 2012.

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2 Comentários

  • Adriana Garcia

    Eu desenvolvi anorexia ainda na infância. Sofria bullying na escola e tinha uma avó que pilhava a minha cabeça com MUITA ideia errada simplesmente porque ela não gostava de mim. E como eu nunca fui daquelas crianças magrinhas e sempre gostei de comer de tudo ela usava isso pra me deixar mal e colocava na minha cabeça que se eu fosse gorda ninguém ia gostar de mim e eu passaria a vida inteira sozinha(sozinha sem ninguém mesmo,nada a ver com arrumar marido e tal). Então a minha cabeça de criança aos nove anos começou a relacionar o bullying com o que minha avó me dizia e eu comecei a acreditar que a galera toda me odiava por causa do meu corpo e nisso eu fui deixando de comer. E nisso se foram anos ficando bem e tendo recaídas de novo. Meu relato foge um pouco do texto mas se encaixa bem no título hahahaha Muita gente pensa que transtorno alimentar vem de uma fixação por magreza mas não é bem assim. Diversos motivos podem levar á isso. Fora que quase não se tem informação á respeito,sempre é mais do mesmo e acaba gerando toda uma ideia errada nas pessoas em relação á essas doenças,inclusive uma certa romantização. São doenças devastadoras,te trazem uma enxurrada de problemas de saúde e podem ser fatais. É difícil pra galera compreender como é ter isso,é uma luta diária contra a sua própria mente. É importante a gente falar sobre isso,tanto trazendo relatos como reflexões e etc,é uma forma de fazer as pessoas olharem com mais atenção.

    1. Marie GWS

      É isso, Adriana… E essa romantização foi muito intensa nos anos 90, quando nós do GWS éramos adolescentes.

      Nossa, uma pena que você tenha sofrido esse tipo de pressão e até abuso dentro de casa, com alguém da sua própria família! :(

      Mas é isso mesmo que vc disse, esse problema está muitas vezes mais ligado a aceitação e pertencimento do que a magreza em si. Beijos!