Vamos falar sobre aborto.

Por Girls With Style / gws@gwsmag.com

Por Pollyanna Assumpção:

aborto seguro

No dia 26 de agosto, a Jandira Magdalena dos Santos Cruz, 27 anos, sumiu no Rio de Janeiro. A última notícia sobre ela foi que seu ex-marido a levou num ponto de encontro onde ela entrou em um carro branco com outras mulheres, que a levaria a uma clínica de aborto pra que ela pudesse ilegalmente fazer o procedimento. Grávida de 4 meses, Jandira queria como outras 70 mil mulheres que morrem por ano no mundo, decidir sobre o que fazer com seu próprio corpo. Eu tenho 31 anos e muitas amigas mulheres e posso dizer que algumas amigas minhas já fizeram aborto ao longo da vida. Algumas, assim mesmo, no plural. Mulheres fazem aborto por dezenas de motivos e honestamente não me importa saber quais são. Cada um sabe de si, de seus sonhos e desejos, de suas condições físicas, financeiras e psicológicas, de suas vontades e possibilidades e independente dos motivos que levam uma mulher a fazer esse tipo de escolha, é sobre a sua vida e seu corpo que estamos falando.

radical chic

Radical Chic

Sempre gosto de dar alguns dados sobre o assunto que escolho falar e gostaria de dar alguns dados simples sobre a situação das mulheres que fazem aborto no Brasil. Vou usar a pesquisa feita em parceria entre a UnB e o Ministério da Saúde e que foi publicada na revista científica Ciência & Saúde Coletiva. A maior taxa de aborto, contrariando o que a lenda urbana diz, foi feita por mulheres entre 25 e 39 anos, somando 56% das mulheres. Dessas, 30% são católicas, o que desmente que quem faz aborto é contra Deus. Mas o que mais surpreende é saber que 71% dessas mulheres estão em um relacionamento estável e muitas tem família e já até outros filhos. Uma em cada cinco mulheres já fizeram um aborto. Então, você sabendo ou não, com certeza conhece alguma. E a cada 2 dias uma mulher morre porque fez um aborto inseguro. Eu fico feliz de ainda não conhecer nenhuma.

Esse tipo de questão não devia ser tratada da forma leviana que é tratada pela política e pela sociedade. Números grandiosos mostram a quantidade absurda de mulheres que passam por isso em sua vida. Poucas passam isso em segredo absoluto. O aborto no dia a dia é algo que existe e é apenas ignorado, como se fosse algo incomum. Não é. E como algo recorrente em nossa sociedade, ele não deve ser ignorado ou discutido como opinião pessoal. Muito menos discutido aos olhos da religião. Ele deve ser discutido como questão de saúde pública. A legalização do aborto não deve ser tratada por um plebiscito, ela não é uma questão de opinião ou achismo. Mulheres morrem todos os dias porque não podem continuar sua gravidez e ninguém além dela pode opinar sobre isso. Anos atrás a pederastia era considerada crime e o Estado também impedia que homens se relacionassem com outros homens. Homens eram presos e condenados por serem gays. Até que ponto o Estado pode interferir nas escolhas que você faz sobre seu corpo? O Estado vai me obrigar a fazer dieta também? A pintar minhas unhas?

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Antes que vocês se horrorizem com minhas comparações, gostaria de lembrar que ninguém acha aborto maneiro. Ninguém é a favor de abortar. Ninguém acha divertido. Mas eu sou a favor das mulheres terem autonomia sobre seu corpo e suas escolhas e sou contra a quantidade de mulheres que morrem todo ano. E se você é contra a legalização do aborto, é bastante simples: não aborte. A Igreja também é contra o anticoncepcional e a camisinha, mas isso a galera não liga muito hoje em dia, né? Acho engraçado quando os “do contra” só lembram da Bíblia e seus dogmas quando os interessa. E religião, assim como sua opinião, é pessoal. Eu tenho a minha, você tem a sua, mas ela é feita pra nortear a minha vida, não a do meu vizinho.

A vida de milhares de mulheres não pode estar em risco por causa de um dogma religioso. A ciência é clara em como considerar o feto até 3 meses de idade e por isso em tantos lugares do mundo o aborto é permitido. Em lugares como na França a mulher toma um simples remédio abortivo. É como ficar menstruada, sem facas, sem drama, sem imagens de fetinhos tristes como as que são divulgadas por grupos anti-escolha. Sou contra o uso do termo “pró-escolha” e “pró-vida”, porque gente, pró vida de quem? A vida de uma mulher feita, com ideias, pensamento, sentimentos, problemas, é mais importante que a de um conjunto celular em crescimento que ainda não se transformou em um ser humano efetivamente? Vamos deixar mulheres morrerem porque o Estado e a Igreja acham que sabem melhor o que uma mulher pode fazer com seu próprio corpo do que ela própria?

Em agosto de 2012, nosso vizinho Uruguai legalizou o aborto no país. O número de mulheres mortas atingiu a incrível marca de ZERO. Eu quero viver em um mundo onde uma mulher desesperada não enfie uma agulha de tricô em sua vagina, tenha hemorragia interna, seja internada e enquanto se recupera, um médico ou uma enfermeira liga pra polícia pra denunciar o “crime” da mulher que apenas não queria um filho. Eu não quero viver em um mundo onde minha amiga decidiu fazer um aborto e eu fico preocupada se ela vai voltar pra casa. Eu não quero viver em um mundo com Jandiras que não voltaram pra casa porque podem ter tido uma complicação na mesa de cirurgia e a clínica clandestina teve que se livrar do seu corpo. Eu quero viver em um mundo onde eu tenha autonomia sobre meu corpo, minhas decisões e minha vida e que a opinião e a religião alheia não sejam motivos para o impedimento de qualquer coisa. Vida pra mim é aquilo que temos a partir do momento que temos consciência e formato humano. Risco pra mim quem corre é quem está vivo. E suas opiniões retrógradas, machistas e que valorizam mais a vida do feto sem consciência do que da mulher não vão pautar o que faço ou não com meu corpo. Superem.

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2 Comentários

  • JOSIANE

    Achei o posicionamento em relação ao aborto coerente com quem defende os direitos humanos das mulheres.
    Há muito chão pra caminhar…bora lá!

    1. Marie GWS

      Bora!!!