A viagem que mudou a minha vida: Capitulo IV – Mochilão pela Europa: A minha home sweet home britânica

Por Carol Guido / carol@gwsmag.com

Nem acredito que já estamos no quarto capítulo da minha saga mochileira. Se você chegou até aqui comigo, sério, não sei nem o que dizer. Você é fod*! E se você está aqui pela primeira vez e não faz ideia do que eu estou falando,  leia os capítulos I, II e III desta viagem de aventura, coragem e superação. É adrenalina na certa.

Mas voltando à história…

Próxima parada: Conhecendo minha futura casa – ainda em Abril, 2007

Depois de conseguir meu visto de 6 meses, saí da área de desembarque do aeroporto de Londres ainda meio tonta. Procurei o telefone público mais próximo e, depois de ligar para a minha mãe, liguei para o Márcio (lembram dele? É o moço brasileiro que ia me ajudar a arrumar um lugar pra ficar).

Meu coração quase saía pela boca a cada sinal de chamada no telefone. O medo de ele não atender imperava.

Mas ele atendeu:

— Oi Márcio, aqui é a Carol, tudo bem? Cheguei! Deu tudo certo. Onde a gente se encontra.

— Que ótimo! E tem mais notícia boa pra você (finalmente, né Deus, tava precisando mesmo). Consegui um lugar pra você ficar. É em Dollis Hill, aqui perto da minha casa. É um quarto que você vai dividir com mais uma brasileira.

— Hummmmm… (insira uma dificuldade de disfarçar a dificuldade em dividir quarto com uma desconhecida aqui). Tudo bem, tudo bem. Vambora. O que eu faço agora?

— Vem aqui pra estação de Dollis Hill. Te busco de carro na saída do metrô, a gente vai no supermercado pra você comprar as coisas que precisa, depois te levo lá na casa nova.

— Ok. Valeu, beijo!

E lá vou eu mais uma vez rir na cara do perigo. E mais uma vez ser muito sintonizada com as boas vibrações do cosmos: Da ida do aeroporto até a minha nova casa deu tudo certo. O Márcio era demais. Um brasileiro do interior, que morava há mais de 5 anos em Londres. Ele me contou que quando chegou lá, passou muitos perrengues e que se não fosse pelos outros brasileiros, teria ficado na m****. Por isso fazia questão de ajudar todo mundo que chegava lá na mesa situação.

O problema foi quando cheguei na minha nova casa. O Márcio me apresentou para o cara que alugava os quartos lá, que também era brasileiro, mas que não devia ter a mesma filosofia de ajuda à conterrâneos. O que ele tinha era uma baita cara de mercenário. Mas já que estava pagando pouco, tudo bem.

A casa era bem típica de bairro pobre inglês: ficava colada com outras, todas iguais, era muito velha por dentro, tem um janelão arredondado de um lado no térreo e a porta do outro. Do tipo que a gente viu em Skins (ou no clipe “Stop” das Spice Girls).

Quando entrei, subimos diretamente a escada que levava para os quartos do segundo andar. Tudo caindo aos pedaços, carpete no chão já velho, piso de baixo do carpete fazendo barulho quando se pisava. Apesar disso, a casa era limpa. O que me aliviou um pouco e meu deu forças para seguir em frente.

Quando o “mercenário” abriu a porta para mostrar meu quarto, bateu a em um móvel que ficava no pé da cama. Este móvel tinha um vaso com flores já bem velhas em cima. Junte lé com cré. Sim, o vaso com água velha e flores velhas caiu em cima da minha cama e molhou tudo.

Ele deu um sorriso amarelo enquanto pedia ajuda para o Márcio para virar o colchão para o lado contrário. Eu engoli seco e só pensava que queria sair correndo dali.

Mas agora já não dava. E mais uma vez a viagem faz juz ao nome desta série de posts. Todos os perrengues, momentos de vitória e de desespero (como esse) me transformaram numa pessoa melhor. Mais consciente e responsável por mim mesma. Eu era uma criança antes disso, sem dúvida.

Então acertei o aluguel e nós descemos para eles me apresentarem as pessoas da casa.

Tinha uma menina da mesma idade que eu, chamada Michelly, que era do interior de SP, morava lá há uns dois anos e trabalhava numa floricultura. O visto dela já tinha expirado. Um casal também de São Paulo (ou Minas? Não lembro), que moravam lá há uns 3 anos e trabalhavam em coisas que não me lembro. O visto deles também já tinha expirado. Um garoto de uns 20 e tantos anos, muito fofo e querido. Acho que era mineiro, morava lá há mais ou menos o mesmo tempo que os outros e trabalhava como faxineiro em casas de brasileiras com grana. Adivinha? O visto dele estava vencido. Tinha também um outro cara brasileiro, acho que era do interior da Bahia, morava lá há mais tempo que todos, uns 5 anos, e trabalhava não sei com o quê. Sim, também estava lá ilegal.

No meio dessa brasileirada toda, tinham dois amigos portugueses, de 20 e tantos anos, meio com jeito de terem saído vazados de Portugal por que estavam com problemas pessoais ou coisas mais pesadas. Eles nunca me contaram o porque de estarem em Londres de verdade, mas tem alguma coisa tensa no meio. Eles não precisavam de visto para estar lá.

E por último, a minha roommate, a Lourdes, que não estava em casa na hora, mas o Márcio já tinha tentado me acalmar, me adiantado que ela era boazinha, tranquila, tinha entre 40 e 50 anos e era muito religiosa.

Quando o Márcio e o mercenário foram embora, já estava tarde. Eu voltei para o meu quarto e fiquei uns 5 minutos em pé meio perdida, sem saber o que fazer. Nesta hora a Lourdes chegou.

— Oi, tudo bem, você que é a menina que chegou para dividir o quarto comigo?

— Oi, sou sim.

— Que bom minha filha, seja bem vinda.

E ela me deu um abraço apertado acolhedor, de mãe. Lógico que eu desabei em lágrimas na mesma hora.

— Não fica assim… Calma, vai dar tudo certo. Está tudo bem. Qual o seu nome?

— Snif, err… Carol. Snif, snif.

— Olha Carol, Londres é uma cidade maravilhosa, tem muitas oportunidades e as coisas não são tão difíceis como parecem.

Eu só chorava. E ela continuou.

— Qualquer coisa que você precisar pode contar comigo tá?

— Lourdes, obrigada. Eu não tô conseguindo pensar, não queria mais estar aqui, preciso voltar pro Brasil, eu não vou conseguir, estou desesperada, aquele cara jogou água suja no meu colchão, ai meu Deus, não vou conseguir…

— Calma. Você quer fazer uma oração?

— Quero.

A religião que eu nunca tive me salvou naquele dia. Fiquei mais calma e consegui dormir. O dia seguinte amanheceu ensolarado e a casa toda se reuniu para um almoço no quintal. Aí eu vi que a Lourdes tava certa. As coisas iam ser boas. Eu poderia passar perrengue, mas as pessoas que estavam comigo eram legais e de confiança. Graças a Deus.

Informações para quem quer viajar:

Onde morei no primeiro mês (muito barato): Em Dollis Hill, na linha cinza do metrô, do lado Noroeste da cidade. Não é um lugar agradável, mas não achei perigoso. Obviamente recomendo que você procure bairros mais bonitos e centrais.

A história completa:

– Capítulo 1

– Capítulo 2

– Capítulo 3

– Capítulo 5

PS: O próximo post deve ser o último. Vou contar pra vocês algumas histórias da vida em Londres, como me virei para arrumar grana, as pessoas que conheci, as enrascadas que me meti e se passei na prova de Cambridge (afinal foi por isso que fui para lá haha). Tinha falado no primeiro post que não ia contar do meu mochilão (depois de Londres, passei por Lisboa, Porto, Santiago de Compostela, Barcelona e Paris), mas acho que vou transformar o passeio por estes países em posts separados desta série. Vai fazer mais sentido, trust me.

Tags:


6 + 8 =



Warning: file_get_contents(https://graph.facebook.com/?id=http://www.girlswithstyle.com.br/viagem-mudou-minha-vida-mochilao-europa-capitulo-iv/&summary=1): failed to open stream: HTTP request failed! HTTP/1.1 403 Forbidden in /home/gwsmag/www/wp-content/themes/gws/comments.php on line 60

2 Comentários