Nem gorda, nem magra

Por Nuta Vasconcellos / nuta@gwsmag.com

Eu sou uma pessoa 8 ou 80. Ou eu gosto, ou não gosto, ou faço algo exatamente como eu quero, ou não faço de jeito nenhum, ou eu como uma pizza inteira de chocolate branco com morango ou não como nem uma fatia.

Talvez por conta dessa característica da minha personalidade os deuses resolveram colocar no meio termo de tudo da vida, pra eu sofrer mesmo esse karma. O que os deuses chamam de meio termo, eu chamo de limbo. Não sou rica, não sou pobre, não sou super inteligente, não sou burra, não sou capa de revista, não sou feia, não sou gorda, não sou magra.

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Eu fui uma criança beeem gordinha. Não só gordinha mas alta e com pé grande. Hoje, tenho 1,73 e calço 39, mas ainda criança, calçava 37 o que me deixou no limbo. Eu era louca para ter a sandália da Xuxa, mas não existia do meu tamanho. Eu não encontrava sapato de criança e não era adulta pra gostar e usar sapato de gente grande. Eu nunca brinquei nos brinquedos do McDonald’s porque era alta demais pra eles e uma vez, na banca de jornal, enquanto eu comprava a revista da Mônica quando eu tinha 10 anos, a jornaleira me disse que eu já tinha idade pra ler Capricho. Ela achou que eu tinha 13. Eu não entendia muito bem porque todos os meus amigos podiam aproveitar o mundo infantil e eu recebia olhares de reprovação. Eu mesma, ficava na dúvida aonde eu me encaixava.

Quando eu cheguei na adolescência, eu continuei sendo bem gordinha e mais alta. Mais alta que todas as meninas do meu colégio, mais alta que a maioria dos meninos. Lembro que minhas amigas se emprestavam roupa, e eu nunca era incluída naquilo.  Depois dos 19 anos, minha vida virou uma montanha russa de emoções em forma de quilos. Eu fiquei bem magra, bem magra. Do tipo que as pessoas pedem dicas de dieta. Essa minha primeira perda de peso não foi nada saudável. Eu tomei remédios que me deixavam com cara de zumbi (eu também me sentia um zumbi), zero libido e acordava no meio da noite com o coração disparando. Mas as pessoas me achavam linda, me elogiavam e eu fiquei nessa de me envenenar durante alguns anos afinal, eu ainda não me via magra, não me sentia magra. Na minha cabeça eu ainda não parecia com as minhas amigas. Magrinhas e pequenas. Na Farm eu ainda vestia G, ainda tinha coisa que não servia. Aliás, isso é um clássico. Não servir. O que é esse tamanho G da indústria? Não faz sentido você ficar deprê por não caber em uma calça que claramente, o tamanho não é o que diz na etiqueta. É a moda brasileira que precisa urgentemente começar a ser mais inclusiva. Voltando aos remédios, eu não parei porque eu quis. Eu parei porque simplesmente eles pararam de fazer efeito e em 6 meses, vi minha calça 38 virar 42.

Dos 19 aos 25 anos eu usei: 38, 40, 42, 44, 42 de novo, 44, 46, 44, 46. Mas mesmo assim, nunca fui obesa e sempre estava lá, no limbo. Gorda demais para lojas que eu babava assistindo no SPFW, magra demais para as lojas plus size. Era a gorda das minhas amigas magras, a magra das minhas amigas gordas.

Lembro que uma vez uma amiga obesa me disse: “Ai se eu tivesse o seu corpo seria tão feliz” e uma semana depois ouvi de outra amiga: “Nuta se você emagrecesse ficaria muito gata”. Não sabia o que sentir, se ficava feliz por ter o corpo que minha amiga obesa desejava, ou triste porque minha amiga magra me achava gorda. “Grande” é a definição que mais escuto na vida.

Não ser considerada nem magra, nem gorda, não é nada prático. Os biquinis P, M, G não cabem no meu peito, o modelo plus size sobra.  Nas lojas as roupas ficam apertadas, plus size, largas. Se falo que sou gorda, algum gordo me repreende, mas jamais me consideram magra. E eu sei lá, me acho uma sanfona sem definição. Lembro uma vez, em 2012, quando eu estava fazendo uma dieta super radical, malhando todo dia e fazendo drenagem, emagreci 12kg. Durante um Fashion Rio um blog tirou uma foto do meu look, e na descrição dizia que eu sabia me vestir mesmo não sendo magra. O texto era mega legal, mas eu estava na época me sentindo super magra vestindo 42, mas ainda não era o suficiente para alguns, mas para outros sim, porque quando postei a mesma foto no meu instagram, ganhei alguns: “Meu Deus, você tá magrinha!” Fotos são sempre um problema. Olho fotos antigas, em que eu na época me achava enorme e me acho magra. Confusão pura.

aspas-nem-gorda,nem-magraSó depois que passei dos 25 e fui me aproximando do retorno de saturno, passei a aceitar mais meu corpo. Mas não foi uma coisa que aconteceu assim, do dia pra noite. Eu tive que abrir minha cabeça para novas referências, parar de tentar me encaixar em um padrão. E hoje posso dizer que me sinto bem na minha própria pele, nem penso em regime, gosto de comer salada, frutas, alimentos saudáveis igual gosto de pizza e batata frita. Mas obviamente, como com equilíbrio porque não quero infartar. Faço exercícios porque gosto e me sinto bem depois que termino. Se não acho roupa, mando fazer, no drama. Quero mudar um monte de coisas, mas sei que estou longe de ser a pessoa que se odiava e queria se encaixar que um dia eu fui. Aceitação liberta. Mais que qualquer dieta.

Mas pra gente se aceitar, tem que ter representatividade, tem que sair do lugar comum. Não consigo me inspirar no instagram das blogueiras magras e tenho dificuldade de me visualizar nos looks das meninas que são muito gordas. A mídia só te mostra Adele ou Taylor Swift, aonde estou? Quero ver mais mulheres como eu. Na internet, na TV, nos livros, em Hollywood. Mas se a mídia não mudar, eu vou fazer a minha parte.

Parei de tentar me encaixar em algum padrão. Seja ele magro, gordo, sarado… cada corpo é único e se encaixar nessas gavetinhas não vai melhorar a minha autoestima. Nem a sua. O que a gente precisa mesmo é ter amor próprio e aprender como resolver nossas questões. Get your shit together sabe? Parar de se comparar como bem disse a Isa, é o começo. Depois disso, buscar novas referências, e criar as suas próprias, como eu falei nesse post. E finalmente, olhar pra dentro. Descobrir o que funciona pra você e que ninguém mais pode descobrir. Você é dona do seu corpo, da sua mente, e se conhece como ninguém. Use seu tempo descobrindo o que te faz feliz e transforma sua autoestima. Levei tempo para assumir uma postura que sempre acreditei: Não acho gorda ofensa, nem magra elogio, só características. E não faz mais nenhuma diferença pra mim onde vão me encaixar.

Como disse a escritora Barrie Davenport, ”Falta de confiança não é imutável. Podemos aprender a ter confiança, praticar e dominar, exatamente como qualquer outra habilidade. Uma vez que você domina, tudo na sua vida vai mudar para melhor.”

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4 Comentários

  • Thais

    Muuuuuito legal…muito legal mesmo, me identifiquei muito…obrigadaa!

  • Alice

    Nuta, to contigo e não abro! Ahaha, me incluo nas mesmas “definições” e hoje me auto-defino fofinha e sou feliz assim, graças a Deus! Mas a época da adolescência é triste demais hein! Beijos, te admiro muito!

  • Andreza

    Oi, Nuta!
    Adorei seu texto. Cheguei aqui justamente por esta definição: nem gorda, nem magra. Sinto falta de representatividade sim. Às vezes, sou gorda demais ou ok. Nunca magra. Adoro esta iniciativa do empoderamento. Não quero deixar de fazer as coisas que eu gosto (comer) para entrar num roupa do shopping. Mas me sinto muuuuito mal quando não entro.
    Ou quando faço uma foto e meus braços dizem oi antes que o meu olhar. Ou ainda meu peito, sempre grande demais. Gostei muito mesmo daqui <3

  • MAYARA PIres

    Parece que esse texto eh a minha historia hahahahah alem do mesma altura e mesmo numero de sapato, passei por situacoes parecidissimas!